NAS ENTRANHAS DO SERTÃO
Nasci nas entranhas do sertão
Vivi na poeira deste chão
Sentindo o gosto
Do pó no rosto
Desde o sol nascente
Ao sol posto.
Cresci por entre as pedras debaixo de um céu azul
E na sombra do Juazeiro
Sentindo o cheiro
Da flor do mandacaru.
Vi secas
Vi fomes
nas terras tão secas
Molhadas pelo suor
De rostos tão corajosos a insistir no torrão
Mas vi águas, enchentes
Correndo no leito
Em grandes torrentes
Lavando o peito
Que antes doíam sem dó.
Eu nasci nessas entranhas
De viola e cantoria
Onde a lua brilhava de noite
E de dia o sol ardia.
Vi a cotovia cantando
Vi acauã assombrando
Mas vi João-de-barro engenheiro
Fazendo contra o nascente
Sua casa de sapé
Porque de longe via a enchente
Que estava pra suceder.
Dancei em forró de terreiro
Com mesa de pinga encostada no cercado
A luz era candeeiro
Tirando o gosto com tatu torrado
E a cajarana era a sobremesa dentro de um prato quebrado.
Vi novenas e procissões clamando por São José
A pedir chuva com abundância ao Senhor dez Nazaré.
E do céu caiam águas
Molhavam o chão com fartura
Na ribanceira levava as mágoas
Da seca que era dura
Mas agora, a semente socada no chão
Cai no solo, cria raiz
E depois é parida em explosão.
Deixando o sertanejo feliz
E nessas entranhas inda hoje estou
Cantador cabra da peste
Que até hoje cultiva esse amor
Por esse encantado nordeste
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