Ninguém

Thomas Vasconcellos Ivanov

Há uma estranha violência

naqueles que dizem me compreender.

 

Não porque me odeiem,

mas porque me atravessam

como quem olha para um espelho

e não para um homem.

 

Dizem:

“eu me identifiquei com você.”

 

E então eu desapareço.

 

Minha dor deixa de ser minha,

meu clamor perde identidade,

e tudo aquilo que sangrei em palavras

vira apenas reflexo

da experiência de outro alguém.

 

Mas eu não queria ser reflexo.

 

Queria que olhassem para mim

sem a necessidade desesperada

de me traduzirem para si mesmos.

 

Porque há algo cruel

em transformar alguém

numa versão familiar do próprio mundo.

 

É como arrancar a individualidade de um corpo

e chamá-lo de conexão.

 

Tentam me compreender

comparando.

Tentam me acolher

me reduzindo.

 

E quanto mais falam

que me entendem,

mais distante me sinto.

 

Porque não quero ser encaixado

em memórias alheias,

nem dissolvido

na interpretação de ninguém.

 

Quero apenas existir

sem ser convertido

num símbolo confortável.

 

Mas talvez isso seja impossível.

 

Talvez ninguém enxergue ninguém.

 

Talvez apenas procurem

fragmentos de si mesmos

perdidos dentro dos outros.

 

E talvez seja por isso

que até o ato de ser ouvido

às vezes parece solidão

  • Autor: Thomas Vasconcellos Ivanov (Offline Offline)
  • Publicado: 16 de maio de 2026 09:31
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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