YES
Você chegou no dia vinte e um de abril
como chegam as chuvas fracas no fim da tarde:
sem aviso,
sem permanência prometida,
sem parecer perigoso.
E eu, que sempre sobrevivi aos meninos fumaça,
não percebi
que dessa vez o incêndio começava em mim.
Menos de um mês.
Foi o suficiente
pra eu aprender teus silêncios de cor,
pra transformar teu nome
em oração escondida nas músicas da minha playlist,
pra trocar o mundo inteiro
pela expectativa de uma notificação tua.
Você dizia:
“você não vai me querer porque...”
e deixava a frase aberta
como quem já prepara a própria fuga.
Porque eu moro longe.
Porque existe alguém melhor.
Porque você acha
que eu vou cansar.
Mas no fundo, Rafael,
acho que era você
tentando avisar
que teu coração ainda mora numa casa antiga.
E eu senti isso.
Nos teus reposts de solidao,
nas frases de saudade,
no jeito que você parece conversar com alguém invisível
que nunca saiu da tua cabeça.
Talvez eu tenha chegado tarde demais.
Talvez exista uma mulher
sentada eternamente dentro do teu peito
ocupando o lugar
que eu queria chamar de meu.
Mesmo assim, eu fiquei.
Fiquei ao ponto de decorar teus detalhes mínimos,
como quem cava obsessão com as próprias mãos.
Nunca fiz isso por ninguém.
Nunca quis saber tanto.
Nunca senti meu pensamento girar ao redor de alguém
como fumaça presa dentro de um quarto fechado.
Você me elogia
e depois me afasta sem perceber.
Me olha como rara
mas me segura como temporária.
E eu odeio a forma
como meu coração aprende dependência rápido.
Porque conversar com você
virou abstinência.
Enquanto outros meninos gritavam interesse,
faziam questão de existir na minha vida,
você parecia sempre metade presente,
metade olhando pra trás.
Como homem que ainda espera
uma antiga paixão voltar pela porta
e salvá-lo dele mesmo.
Mas eu teria feito isso por você.
Eu teria pintado tuas tatuagens,
decorado teus medos,
atravessado cidades,
morrido de amor devagar
sem reclamar da dor.
Porque amar, pra mim,
sempre foi exagero.
E talvez esse seja meu maior erro:
eu amo como quem entrega a garganta
pra alguém que nem sabe
se quer ficar.
No fim, acho que você vai embora.
Vai desaparecer aos poucos,
igual fumaça escapando pela janela,
e eu vou ficar aqui
tentando entender
como alguém pode marcar tanto
uma vida
em tão pouco tempo.
Mas existe uma verdade cruel nisso tudo:
você nunca foi meu.
Eu só transformei tua presença pequena
num universo inteiro
porque meu coração tem essa mania triste
de fazer lar
em lugares de passagem.
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Autor:
gigisimkk (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 16 de maio de 2026 03:24
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 1

Offline)
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