Eu precisava de um emprego
Não só pelo dinheiro
Isso seria simples demais
Eu precisava de um crachá
Pra provar que existo
Precisava acordar cedo
Pegar ônibus lotado
Chegar cansada em casa
E ouvir:
“Pelo menos você tá trabalhando.”
Como se o trabalho
Lavasse a vergonha
De existir sem produzir
Porque quando você não trabalha
Eles te olham diferente
Como se desemprego
Fosse falha moral
Como se tristeza
Fosse preguiça
E eu comecei a acreditar
Comecei a medir meu valor
Em horas trabalhadas
Em notas no bolso
Em quantas vezes consegui dizer:
“Tô ocupada.”
Porque gente ocupada
Parece importante
E gente importante
Recebe respeito
Recebe resposta rápida
Recebe validação
Recebe amor mais fácil
Dinheiro compra até paciência
Sem emprego
Eu me sentia um vulto na casa
Um projeto atrasado
Um currículo ignorado
Um futuro mofando na gaveta
“Você precisa fazer alguma coisa da vida.”
Como se eu já não estivesse tentando
Todos os dias não desaparecer
Então eu trabalhei
Trabalhei até minhas dores
Virarem rotina no corpo
Até confundirem exaustão
Com maturidade
Cansaço com sucesso
Mas no fundo, bem no fundo
Eu só queria acreditar
Que alguém me enxergaria
Mesmo sem produtividade
Mesmo falhando
Mesmo pobre
Só que o mundo não ensina isso
O mundo ensina
Que quem produz merece existir
E quem não consegue
Vira estatística
Piada ou silêncio
E às vezes eu acho cruel
Que a única coisa
Que me fez sentir alguém
Foi vender meu tempo em parcelas
Pra conseguir sobreviver
— Naiumi
São Paulo, 16 de março de 2026.
© Todos os direitos reservados.
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Autor:
Naiumi (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 16 de maio de 2026 00:28
- Comentário do autor sobre o poema: Um poema sobre a violência silenciosa de precisar provar valor através do cansaço. Entre ônibus lotados, currículos ignorados e a exaustão romantizada, “Carteira Assinada” transforma desemprego, sobrevivência e validação social em um desabafo poético sobre identidade, pertencimento e dignidade. Crescemos ouvindo que o trabalho dignifica, mas o que acontece quando começamos a acreditar que só merecemos amor, respeito e existência enquanto estamos produzindo? Para quem já sentiu culpa ao descansar, vergonha ao parar, ou confundiu exaustão com maturidade. Um retrato cruel e íntimo de uma sociedade que ensina que produzir é existir, e do quanto isso machuca por dentro.
- Categoria: SociopolÃtico
- Visualizações: 2
- Em coleções: Fragmentos de Existir.

Offline)
Comentários1
foda.
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