O Segundo Exílio

Snazalac Odraude

Se por um milagre de ironia a porta enfim se abrisse,
E o teu vulto cruzasse o umbral deste meu deserto,
Eu não veria a vida, mas a prova de que o tempo murchou.
Não haveria o "nós" de outrora, aquela pátria que eu perdi;
Haveria apenas dois estranhos habitando a carcaça de um sonho,
Lendo as cláusulas de um contrato cujas letras o sangue borrou.

 

Eu sei que não seria igual. As palavras seriam moedas gastas,
Sem o brilho da entrega, sem o peso da verdade absoluta.
O "eu te amo" soaria como uma sentença lida por obrigação,
E o teu olhar, antes porto, seria apenas um espelho de vidro frio.
Viveríamos na indiferença, esse silêncio que corrói os alicerces,
Onde nada do que foi sagrado teria a importância de um rito.

 

Não haveria mais o fluxo constante, as mensagens sem pressa,
Os vídeos que nos faziam rir.
A intimidade, aquela carne profanada pela luz da hora do almoço,
Seria hoje uma memória de museu, um arquivo que ninguém acessa.
A espontaneidade morreu no dia em que a dúvida nasceu;
O que era fogo tornou-se apenas a contagem das cinzas.

 

Estou preso àquela que conheci no início, a versão de luz,
A mulher que não sabia que eu era capaz de ser o meu próprio carrasco.
Tentei me acostumar com as sucessões de ti, com as sombras que vieram,
Até encarar esta versão que eu mesmo fabriquei com o meu erro.
Tu és hoje a criatura da minha culpa, o reflexo do meu crime,
E eu não sei amar o monstro que a minha traição pariu.

 

Mesmo que voltasses, o "normal" seria um país estrangeiro.
Seríamos dois náufragos numa jangada de gelo e de mágoa,
Tentando fingir que o naufrágio não deixou marcas na pele.
O meu amor por ti é uma doença que só se cura com o passado,
Pois no presente, somos apenas o que restou de uma explosão:
Um silêncio ruidoso, uma ausência que divide a mesma cama.

  • Autor: Snazalac Odraude (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de maio de 2026 14:47
  • Comentário do autor sobre o poema: Explora a ontologia do irremediável. Mesmo o desejo de volta é contaminado pela percepção de que a "nova versão" dela é um produto da dor que você causou. É o reconhecimento de que o amor não é apenas um sentimento, mas uma estrutura de confiança; uma vez que a estrutura colapsa, o sentimento sobrevive como um fantasma num edifício em ruínas. O "eu lírico" aqui não busca apenas o perdão, mas lamenta a perda da inocência do vínculo, algo que nem mesmo o retorno físico pode restaurar.
  • Categoria: Triste
  • Visualizações: 1


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