Feliz Aniversário: Bolo Amargo

Sinvaldo de Souza Gino

Feliz Aniversário: Bolo Amargo

A mesa posta, oitenta anos.  
Bolo seco, velas sem chama.  
Chegam os filhos, chegam os netos,  
Trazem culpa, não quem ama.  
Dona Anita é centro e vazio,  
Um trono de pó na sala fria.  
Beijam a testa, contam os minutos,  
Esperam a hora da sobremesa vazia.

Cada presente é uma faca lenta.  
Cada "parabéns" é um tapa educado.  
A nora mede a herança nos olhos,  
O filho conta o tempo gasto.  
Ela cospe no chão o doce fingido,  
Cospe a família que a devora viva.  
No silêncio, a velha entende tudo:  
Aniversário é quando a morte avisa.

Ao fim, só migalhas e copos.  
Levaram o bolo, ficou o cansaço.  
Dona Anita ri, desdentada,  
Venceu o dia, perdeu o laço.  
Clarice não fez festa, fez espelho:  
Mostrou a podridão da família em flor.  
Feliz aniversário é ironia pura,  
É o grito mudo de quem já não tem cor.

 

  • Autor: GINO (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de maio de 2026 05:26
  • Categoria: Família
  • Visualizações: 1


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