Feliz Aniversário: Bolo Amargo

Sinvaldo de Souza Gino

Feliz Aniversário: Bolo Amargo

A mesa posta, oitenta anos.  
Bolo seco, velas sem chama.  
Chegam os filhos, chegam os netos,  
Trazem culpa, não quem ama.  
Dona Anita é centro e vazio,  
Um trono de pó na sala fria.  
Beijam a testa, contam os minutos,  
Esperam a hora da sobremesa vazia.

Cada presente é uma faca lenta.  
Cada "parabéns" é um tapa educado.  
A nora mede a herança nos olhos,  
O filho conta o tempo gasto.  
Ela cospe no chão o doce fingido,  
Cospe a família que a devora viva.  
No silêncio, a velha entende tudo:  
Aniversário é quando a morte avisa.

Ao fim, só migalhas e copos.  
Levaram o bolo, ficou o cansaço.  
Dona Anita ri, desdentada,  
Venceu o dia, perdeu o laço.  
Clarice não fez festa, fez espelho:  
Mostrou a podridão da família em flor.  
Feliz aniversário é ironia pura,  
É o grito mudo de quem já não tem cor.

 

  • Autor: GINO (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 15 de maio de 2026 05:26
  • Categoria: Família
  • Visualizações: 11
  • Usuários favoritos deste poema: Vilma Oliveira, Francisco Queiroz
Comentários +

Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Boa noite poeta! A festa de 80 anos é descrita com termos de estagnação e morte (bolo seco, velas sem chama, trono de pó), despindo o evento de qualquer alegria. As relações familiares são movidas por obrigação e interesse. Os parentes carregam culpa em vez de amor, medindo heranças e contando o tempo gasto com a matriarca. Dona Anita não é uma figura passiva; ela entende tudo e reage com desprezo visceral (cospe no chão o doce fingido, ri, desdentada) diante do banquete de falsidade. O aniversário funciona como uma contagem regressiva para a morte, onde a protagonista é o centro das atenções, mas permanece em absoluto vazio existencial. Alinhado à tradição clariceana citada no próprio texto, o poema usa a ironia do Feliz Aniversário para desmascarar a falência dos laços familiares, mostrando que a união ali celebrada é pura convenção social. Parabéns por seu poema! Meu abraço poético.

    • Sinvaldo de Souza Gino

      Muito obrigado por ter lido e feito esse belo comentário! Clarice descreve bem essa amargura, a própria poetisa apresenta um estilo nessa pegada de secura, de solidão. Na hora da estrela é apresentado um pouco desse cenário! Obrigado amiga!



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