Eu cruzei os oceanos de ferro e de sal,
Desbravei as florestas de sombra e pavor.
No meu peito batia um tambor imortal,
Um chamado de glória, um brasão de valor.
Mas a noite, implacável, engole o meu sol,
E a espada me pesa qual âncora fria;
O meu manto de herói é um roto lençol,
Onde sangra a esperança que outrora rugia.
Ah, a dor não é o corte da lança ou do aço,
Nem o golpe inimigo que rasga a armadura.
A dor é o silêncio que habita o cansaço,
É a alma que quebra na noite escura.
É o tremor nos joelhos que pedem o chão,
É o ar que me falta, a fraqueza que clama,
É a voz do abismo na minha razão,
Que murmura e apaga a minha última chama.
Eu avisto o cume, a muralha de luz,
Onde o fim da jornada coroa os leais.
Tão perto! Tão perto o destino reluz...
Mas a carne se entrega, não posso dar mais.
Que tortura divina, que fardo cruel,
Contemplar o castelo a um passo do limiar,
E sentir que o meu sangue tem gosto de fel,
Pois o corpo sucumbe antes de lá chegar.
Cai o escudo de bronze na poeira do chão,
Com um baque que sela o fim do caminho.
Não há trombetas, não há celebração,
Apenas o herói que perece sozinho.
Desistir é uma morte que a alma padece,
É render-se ao destino sem glória ou louvor.
É a faísca que treme, que míngua e esquece
A promessa que fez quando tinha vigor.
Que os deuses me perdoem a falta de passo,
Que o vento carregue o meu último ai.
Na margem da glória, eu abraço o fracasso,
Um guerreiro que olha o seu sonho e que cai.
Pois há nisto um lirismo de dor e verdade:
Nem todo caminho se cruza até o fim.
E a maior das batalhas, na imensidade,
Foi aceitar a derrota que mora em mim.
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Autor:
Bardo de Ferro (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 13 de maio de 2026 21:13
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 3

Offline)
Comentários1
Uma saga épica!
Abraços
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