Meu Último Passo

Eder Maurilio Soares

Eu cruzei os oceanos de ferro e de sal,

Desbravei as florestas de sombra e pavor.

No meu peito batia um tambor imortal,

Um chamado de glória, um brasão de valor.

Mas a noite, implacável, engole o meu sol,

E a espada me pesa qual âncora fria;

O meu manto de herói é um roto lençol,

Onde sangra a esperança que outrora rugia.

Ah, a dor não é o corte da lança ou do aço,

Nem o golpe inimigo que rasga a armadura.

A dor é o silêncio que habita o cansaço,

É a alma que quebra na noite escura.

É o tremor nos joelhos que pedem o chão,

É o ar que me falta, a fraqueza que clama,

É a voz do abismo na minha razão,

Que murmura e apaga a minha última chama.

Eu avisto o cume, a muralha de luz,

Onde o fim da jornada coroa os leais.

Tão perto! Tão perto o destino reluz...

Mas a carne se entrega, não posso dar mais.

Que tortura divina, que fardo cruel,

Contemplar o castelo a um passo do limiar,

E sentir que o meu sangue tem gosto de fel,

Pois o corpo sucumbe antes de lá chegar.

Cai o escudo de bronze na poeira do chão,

Com um baque que sela o fim do caminho.

Não há trombetas, não há celebração,

Apenas o herói que perece sozinho.

Desistir é uma morte que a alma padece,

É render-se ao destino sem glória ou louvor.

É a faísca que treme, que míngua e esquece

A promessa que fez quando tinha vigor.

Que os deuses me perdoem a falta de passo,

Que o vento carregue o meu último ai.

Na margem da glória, eu abraço o fracasso,

Um guerreiro que olha o seu sonho e que cai.

Pois há nisto um lirismo de dor e verdade:

Nem todo caminho se cruza até o fim.

E a maior das batalhas, na imensidade,

Foi aceitar a derrota que mora em mim.

  • Autor: Bardo de Ferro (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 13 de maio de 2026 21:13
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 3
Comentários +

Comentários1

  • Shmuel

    Uma saga épica!

    Abraços



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