Não te escrevo para pedir o que perdi — seria um insulto à clareza do teu desprezo. Escrevo porque o meu ser tornou-se um paradoxo biológico. Tu tens razões, e as razões são como instrumentos cirúrgicos: limpas, frias e necessárias. Tu tens o motivo do meu erro, a arquitetura da minha queda, e isso te dá o direito ao esquecimento. Para ti, deixar de me amar é um ato de higiene moral.
Mas em mim, a física falha.
Como se explica ao sangue que ele deve parar de circular por um corpo que já não merece a vida? Não tenho motivos para te deixar de amar; tenho apenas a ausência da tua mão. E a ausência, por mais pesada que seja, não é um argumento para o coração. É anti-natural este esforço de desaprender o que se tornou a minha única verdade. É como tentar ordenar aos pulmões que ignorem o oxigênio porque o ar está poluído pelo meu próprio hálito.
Eu sou o réu que ama o juiz no exato momento da sentença.
A minha memória não é um arquivo que se apaga; é uma substância mineral, incrustada no tecido dos meus dias. É metafisicamente impossível amputar a tua imagem da minha mente, pois tu não és um pensamento que eu tenho, mas a lente através da qual eu vejo o resto deste mundo em ruínas. Tu habitas o silêncio das madrugadas e o barulho dos dias inúteis.
O meu castigo é esta lealdade involuntária. Tu possuis todos os motivos para me odiar, e eu não possuo nenhum para deixar de te pertencer. Sou um náufrago que se recusa a soltar a âncora que o puxa para o fundo, simplesmente porque a âncora é a última coisa que ainda me prende ao fundo do mar onde um dia fomos um só.
Não se apaga um sol apenas fechando os olhos. O escuro que sinto não é a tua ausência de luz, é a minha incapacidade de viver sem o calor que eu mesmo decidi extinguir.
Esta dor não tem fim porque não tem razão. E nada é mais eterno do que aquilo que sobrevive sem motivo para existir.
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Autor:
Snazalac Odraude (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 12 de maio de 2026 09:58
- Comentário do autor sobre o poema: A assimetria do remorso: a ideia de que a vítima tem o "conforto" da razão para partir, enquanto o traidor está preso em uma cela sem janelas, onde a única coisa que resta é um sentimento que já não tem lugar na realidade, tornando-se uma espécie de "membro fantasma" que dói, embora já não esteja lá.
- Categoria: Triste
- Visualizações: 1

Offline)
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