Acamada

Poesia Abandonada

O teto é agora o único horizonte,

Onde o olhar, cansado, faz o seu desenho.

A memória é um rio que busca a fonte,

Enquanto o corpo perde o seu engenho.

As mãos, que outrora moldavam o mundo,

Hoje repousam, pálidas, sobre o lençol.

O passo que era firme, largo e profundo,

Esqueceu o caminho que leva ao sol. O gesto: tornou-se um esforço hercúleo.

A voz: um sussurro que o vento consome. O brio guardado em um peito trêmulo, Onde a vontade ainda grita o seu nome. 

O mundo encolheu entre quatro paredes,

A autonomia é uma sombra que se esvai.

A sede não busca mais águas e redes,

Mas o amparo da mão que nunca sai.

A mente, contudo, é pássaro em vigília,

Voa por campos que as pernas não sentem.

Habita a saudade, a antiga mobília,

E os dias em que as forças não mentem.

Ser é, agora, a coragem de ficar,

Quando o movimento decidiu partir.

É encontrar grandeza no simples respirar,

E um novo modo de, ainda assim, existir.

  • Autor: Poesia Abandonada (Offline Offline)
  • Publicado: 11 de maio de 2026 18:32
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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