O Alívio Que Me Destrói

Mima

Eu voltei pro lugar

que jurei nunca mais pisar.

O mesmo quarto escuro,

o mesmo silêncio duro

que sabe exatamente

onde me machucar.

 

E ninguém percebeu no começo.

Eu sorria.

Falava.

Respondia.

Mas por dentro

eu já estava caindo fazia tempo.

 

Agora virou tempestade visível.

Me olham como quem vê

uma flor esquecida sem água na janela.

Perguntam se estou doente.

E talvez eu esteja mesmo.

Só não é febre no corpo —

é um inverno na alma.

 

Tem dias que o espelho me assusta.

Porque aquela menina de antes

não mora mais ali.

Só ficou o eco dela

perdido nos meus olhos cansados,

nos meus pulsos calados,

na minha vontade de sumir.

 

E dói.

Meu Deus, como dói.

 

Dói levantar da cama

como quem arrasta correntes invisíveis.

Dói existir em dias

onde respirar parece esforço.

Dói fingir que está tudo bem

quando o peito inteiro

está desmoronando em silêncio.

 

E então vem ela:

a solução errada

com cara de alívio.

A lâmina fria.

O corte fino.

O vermelho escorrendo devagar

como se minha dor finalmente

tivesse aprendido a falar.

 

Arde.

Mas alivia.

 

E talvez seja isso o mais assustador.

Porque eu sei que é destruição,

mas ainda assim meus dedos tremem

como quem procura abrigo

na própria tempestade.

 

As pessoas julgam a cicatriz,

mas ninguém pergunta direito

o tamanho da guerra

que aconteceu antes dela nascer.

 

E eu estou cansada.

Cansada de sentir tudo tão fundo.

Cansada de ser forte.

Cansada de sobreviver aos dias

como quem atravessa vidro descalça.

 

Às vezes penso

que a vida foi perdendo as cores

sem fazer barulho.

Como uma música bonita

acabando aos poucos

até virar silêncio.

 

Mas no fundo…

bem no fundo…

ainda existe uma parte minha

escrevendo essa dor

em vez de desistir dela.

 

E talvez isso signifique alguma coisa.

Talvez ainda exista vida

na menina que chora escondido.

Talvez ainda exista esperança

mesmo entre os pulsos feridos

e os olhos destruídos.

 

Porque quem escreve socorro

ainda não desistiu completamente de ser salva.

  • Autor: Mima (Offline Offline)
  • Publicado: 9 de maio de 2026 19:56
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3


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