O circo

Joaquim Saial

 

É um pequeno circo, 
com poucos carros,
raras atracções,
escassos animais.

Manda para o ar música estridente,
através de quatro obsoletos altifalantes.

É o primeiro espectáculo na vila,
está meia casa
e vendem-se pipocas junto à bilheteira.

O apresentador dá início à função:
anuncia os macacos músicos
que surgem pouco depois, magritos.
Os símios não tocam,
só fazem gestos
e a música vem de um gravador.
Logo começam os assobios dos que julgavam
que um macaco pode tocar saxofone.

Seguem-se os palhaços, um gordo e alto,
outro magro e baixo, parecendo anão
- é o filho com sete anos do dono do circo.
Ninguém entende o que dizem, 
pois são espanhóis e falam como palhaços.
Ninguém se ri,
ninguém bate palmas
e os clowns saem sem glória.

E entra a trapezista, no seu maillot vermelho 
bordado a lantejoulas.
Faz piruetas várias e cai na rede de segurança.
Volta a subir as escadinhas estreitas,
faz mais piruetas, volta a cair na rede
e o público diz ahhhhhhhhhhhhh!
quando desejava que não houvesse rede, para poder dizer 
ohhhhhhhhhhhhh!
O chão fica a brilhar de lantejoulas,
pois o maillot era velho.

No intervalo, o palhaço pequeno vende pipocas
e a trapezista algodão doce,
mas poucos compram as guloseimas.
Na segunda parte já não há público,
porque o jogo que está a dar na televisão
é mais circo que o circo.

O toldo é fechado,
as luzes são apagadas,
os artistas recolhem aos carros.
O ilusionista, que não trabalhou, tira o fraque
e a mulher, sua partenaire, despe o vestido longo.

Todos se deitam,
o circo silencia-se.

No dia seguinte, desmonta-se a tenda
e a troupe parte da vila.
O dono do Estrella vai pensativo.
Mais atrás, na jaula do atrelado,
os macacos esperam pelas bananas 
que não chegam. 

 

Do livro "Poemas para a hora de Ponta", ed. Cordel de Prata, Lisboa, 2019

  • Autor: Joaquim Saial (Offline Offline)
  • Publicado: 9 de maio de 2026 18:24
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1
  • Em coleções: Nostalgia.


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