É um pequeno circo,
com poucos carros,
raras atracções,
escassos animais.
Manda para o ar música estridente,
através de quatro obsoletos altifalantes.
É o primeiro espectáculo na vila,
está meia casa
e vendem-se pipocas junto à bilheteira.
O apresentador dá início à função:
anuncia os macacos músicos
que surgem pouco depois, magritos.
Os símios não tocam,
só fazem gestos
e a música vem de um gravador.
Logo começam os assobios dos que julgavam
que um macaco pode tocar saxofone.
Seguem-se os palhaços, um gordo e alto,
outro magro e baixo, parecendo anão
- é o filho com sete anos do dono do circo.
Ninguém entende o que dizem,
pois são espanhóis e falam como palhaços.
Ninguém se ri,
ninguém bate palmas
e os clowns saem sem glória.
E entra a trapezista, no seu maillot vermelho
bordado a lantejoulas.
Faz piruetas várias e cai na rede de segurança.
Volta a subir as escadinhas estreitas,
faz mais piruetas, volta a cair na rede
e o público diz ahhhhhhhhhhhhh!
quando desejava que não houvesse rede, para poder dizer
ohhhhhhhhhhhhh!
O chão fica a brilhar de lantejoulas,
pois o maillot era velho.
No intervalo, o palhaço pequeno vende pipocas
e a trapezista algodão doce,
mas poucos compram as guloseimas.
Na segunda parte já não há público,
porque o jogo que está a dar na televisão
é mais circo que o circo.
O toldo é fechado,
as luzes são apagadas,
os artistas recolhem aos carros.
O ilusionista, que não trabalhou, tira o fraque
e a mulher, sua partenaire, despe o vestido longo.
Todos se deitam,
o circo silencia-se.
No dia seguinte, desmonta-se a tenda
e a troupe parte da vila.
O dono do Estrella vai pensativo.
Mais atrás, na jaula do atrelado,
os macacos esperam pelas bananas
que não chegam.
Do livro "Poemas para a hora de Ponta", ed. Cordel de Prata, Lisboa, 2019
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Autor:
Joaquim Saial (
Offline) - Publicado: 9 de maio de 2026 18:24
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 1
- Em coleções: Nostalgia.

Offline)
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