Não confunda o meu breve desvio de saudade, desejo e desespero com a sua falta de norte.
Houve e ainda existe todas as noites, sim, um lapso de fuso, noites de bússola avariada e descontrolada, onde prefiro doparme com meu remedio para induzir-me ao sono e acordar apenas no outro dia.Prediro apagar a mim mesma do que ascender uma vela
Mas o nomadismo nunca foi minha pele, apenas um traje de viagem
que descartei assim que a primeira luz da razão me encontrou.
Ser "errante" para mim foi um hiato, para outros, é o álibi da inércia.
A conta dessa jornada, porém, nunca foi uma divisão exata.
Enquanto o verso alheio descorre o "acaso" e a mística do luar,
foram os meus ombros que sentiram a densidade real da estrada.
A dureza de seguir, o esforço bruto de manter o eixo,
foi um peso unilateral, sem rimas, sem plateia e sem par.
Não há o que discutir sobre quem se perdeu mais ou melhor.
A matemática do sobrevivente não se resolve em diálogos vazios,
pois enquanto uns flutuam no conceito charmoso de se perder,
outros carregam o chumbo de ter que, sozinhos, se encontrar.
O peso do mundo não se divide com quem só sabe caminhar sem rumo.
Fique com a sua dúvida sagrada e a sua testemunha de prata.
Eu fico com o sol e o prumo que eu mesma forjei.
A alforria não aceita réplicas de quem confunde
o esforço de sustentar o passo com o deleite de nunca chegar.
Meu lado errante foi um ponto, o meu prumo é a minha linha.
Mas não irei o chamar, pois até você sabe a arte e o controle que tem sobre meu olhar.
Pois ainda rezo por aniquilamento silábico.
Ainda rezo para que a sua nomenclatura se desaloje do meu plexo.
Praticando todos os dias a atração pelo vazio como quem estuda um idioma extinto, para esquecer que um dia o soube.
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 9 de maio de 2026 17:52
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 5

Offline)
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