Sou o resto de um homem que se desmorona em si mesmo,
Um amontoado de vísceras e de remorsos sem perdão.
Meu ato não foi um erro; foi o meu verdadeiro batismo no abismo,
Foi o momento em que decidi que a luz era um insulto à minha mão.
Olho para o espelho e não vejo um rosto, vejo um crime.
Vejo a lepra da minha própria vontade, o pus da minha escolha.
Sou o verme que se alimenta do cadáver da felicidade que eu mesmo assassinei,
E cada batida do meu coração é um prego no meu caixão de carne.
Ela era o meu cais, e eu escolhi o naufrágio por puro vício de sombra.
Deixei que os meus demônios — esses cães famintos que eu criei no porão —
Devorassem a paz, o lençol limpo, a dignidade do olhar.
Agora, a solidão não é um estado; é a minha pele, é o meu ar.
E a noite... a noite é um carrasco de dedos gelados.
Dormir é um suplício, pois o sonho é o teatro da minha crueldade:
Ela aparece, nítida, com o olhar de quem ainda não sabe que eu a matei por dentro,
E o seu beijo em sonho sabe a ferro, a sangue e a despedida.
Acordo com o grito mudo de quem cai de uma altura infinita.
O despertar é o verdadeiro chicote, a ponta de brasa na ferida aberta.
Saber que sou eu — este eu imundo, este estrangeiro de qualquer bondade —
Que habita esta casa vazia, este corpo que é um deserto de verdade.
Não busco alívio. O alívio seria a última injustiça que eu cometeria.
Quero o escuro, quero o frio, quero a consciência absoluta do meu nada.
Sou um cadáver adiado que apodrece de olhos abertos,
Celebrando a glória maldita de ter destruído o único paraíso que me foi dado.
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Autor:
Snazalac Odraude (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 9 de maio de 2026 10:32
- Comentário do autor sobre o poema: A ideia de que o indivíduo não apenas sofre, mas \\\"celebra\\\" a própria ruína como a única coisa que lhe resta de autêntico. A dor aqui é física, visceral, e o remorso é tratado como uma infecção incurável.
- Categoria: Triste
- Visualizações: 0

Offline)
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