Intervalo do vazio

Anna Gonçalves

Há um fantasma que habita o brilho dos azulejos frios,
um espectro que aproveita a guarda baixa do cansaço
para sussurrar que a paz é, na verdade, um exílio.
Não é saudade da essência, pois a essência se provou barro 
é a memória muscular de um coração que se habituou ao impacto.


A mente, essa estrategista nostálgica e perversa,
tenta reconstruir o pedestal com os cacos que sobraram,
buscando um sentido no silêncio de quem não tem o que dizer.
Mas o desconforto no peito é apenas o vácuo da saída,
é o pulmão aprendendo a respirar um ar que não queima,
um oxigênio puro, sem o tempero amargo da incerteza.


O banheiro, o espelho, o minuto de mudez...
São os últimos redutos onde o "nós" tenta não ser "eu".
Sentir-se mal e chorar é o sintoma da cura, não da recaída,
é o corpo expelindo o que foi veneno por tanto tempo
que agora, na falta da toxina, ele estremece a carne, estranha e deseja.


Deixei que o pensamento viesse,
sentei-me ao chão, mas não o convidei para sentar.
Olhei para ele como se olha para uma cicatriz antiga,
ela prova que doeu, mas também confirma que esta fechando.
A falta que sinto é do barulho que me impedia de ouvir
a própria voz, que agora, embora trêmula, já sabe dizer
"É melhor esquecer e voltar para você."

A finitude do que foi ruim é o alicerce do que será sólido.
Respirei fundo, olhei no azulejo embaçado e afirmei,
que o vapor da dúvida que antes me cegava o rosto
agora escorre em gotas, cedendo o seu posto.
À clareza crua de quem já não teme o chão,
pois entendeu que o barro é a cura da reconstrução.



  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 8 de maio de 2026 17:59
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 5


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