Em cada minuto que a luz me consente,
A face dela é o vidro por onde eu vejo a vida.
Se rio, o riso é um erro; se choro, é latente
A culpa de ser a minha própria ferida.
Não há trégua no sol, nem sossego no passo.
Mesmo no dia bom — esse raro estrangeiro —
Sinto o peso do que fiz no vazio do abraço,
Sou o réu e o carrasco no meu cativeiro.
A noite aproxima-se com o seu tribunal.
O sono, que é olvido, nega-se a quem erra.
Fico de olhos abertos, num deserto mental,
Guerreando uma guerra que já perdi na terra.
E se o cansaço me vence, a traição se apura:
Ela surge no sonho, intacta e serena.
Dá-me a mão que eu perdi, com a antiga ternura,
E por breves instantes, ignoro a minha pena.
Mas o despertar é o golpe, a queda do abismo.
Acordar é encontrar o deserto da cama.
É o retorno brutal ao meu próprio cinismo,
Ao nome dela que a minha mudez ainda chama.
Dormir é ser dela; acordar é ser eu.
E ser eu é a punição que eu mesmo tracei.
Entre o sonho que brilha e o dia que morreu,
Sou apenas o rastro do que eu não cuidei.
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Autor:
Snazalac Odraude (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 8 de maio de 2026 12:15
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema busca a métrica e o tom de uma fase mais depressiva e metafísica, onde o sujeito lírico se vê como um "zero" que destruiu a única coisa real que possuía. O "acordar" aqui não é o fim do pesadelo, mas o início do verdadeiro tormento: a consciência.
- Categoria: Triste
- Visualizações: 3

Offline)
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