Manual de um Covarde Emocional

Naiumi Rodrigues



Para de fingir

Sério, para de atuar

Esse personagem frio já cansou de performar

De existir só pra se esconder de encarar

 

O inacessível, o incompreendido, o inalcançável…
Querido, isso não é raro, é só descartável

Um clichê mal feito, previsível demais

Um roteiro fraco que já não convence mais

 

Porque eu te li

Te saquei

Te decorei como erro repetido

Padrão que insiste e nunca se corrige, eu sei

 

Te li como quem lê manual barato

Folha amassada, roteiro ingrato

Cada linha prevendo teu próximo ato

Cada silêncio gritando teu retrato

 

E agora… não tem mais volta, não tem mais véu
Você não me engana, nem a você, nem ao papel

A máscara caiu no meio do processo

E o que sobrou foi só medo em excesso

 

Esse teatro de quem “não sente”

De quem se acha acima da própria gente
Inteligente demais, frio demais, distante demais…
Cansativo demais pra sustentar sinais

 

Tá podre. Tá visível

Tá escancarado

Tá exalando um medo mal disfarçado

Um desespero quieto, mal camuflado

 

E eu?

Eu vi

Cada fio dessa farsa costurada aí

Cada mentira vestida de “sou assim”

 

Esse teu “caos” não me convence mais

É só desculpa velha vestida de sagaz

Porque é muito mais fácil bancar o blasé

Do que admitir que você sente pra valer

 

Você sente

E sente pra caralho

Mas prefere se esconder nesse personagem falho
Num teatro interno que já virou atalho

 

Debocha, disfarça, posa de quem não liga

Se esconde atrás de uma ironia antiga

Mas no fundo… é só medo travestido de intriga
Uma guerra interna que nunca cicatriza

 

E deixa eu te contar uma coisa que talvez doa:
Você não é livre, se aprisionou à toa

Virou refém da própria construção

Arquiteto e prisioneiro da mesma ilusão

 

Você é refém do jogo que criou

Do roteiro frio que escreveu e decorou

Do personagem que você mesmo alimentou

Até esquecer quem você realmente é ou foi

 

Esse “eu não me importo” virou tua prisão

Uma cela invisível cheia de negação

Sem grade, sem chave, sem solução

Só ecoando vazio dentro do coração

 

E a verdade?

Ah… ela é simples assim:

Você se importa mais do que admite pra si

E isso te corrói por dentro, até o fim

 

Te quebra 

Te consome 

Te deixa em guerra com o próprio nome 

Com tudo aquilo que você esconde

 

Você morre de medo, não é charme, nem estilo 

É pavor bruto, visceral, primitivo 

Medo de sentir e não ser correspondido 

De se ver exposto e sair ferido

 

Medo de amar e não ser amado 

De se entregar e sair despedaçado 

De confiar… e ser traído 

De ser real, e não suportado

 

Então você se fecha

Se blinda

Se torna ausência contida

Uma presença fria, quase esquecida

 

Vira gelo

Vira pedra

Vira muro que ninguém atravessa

Um sistema de defesa que nunca cessa

 

Mas eu sei o que existe por trás disso tudo:

Um coração tremendo, confuso e mudo

Um medo tão grande que vira escudo

Um caos interno que você nunca estuda

 

Você teme que alguém quebre essa casca perfeita
E veja tua versão mais imperfeita

Tua dor mal resolvida, tua mente inquieta

Tua verdade crua, direta

 

Pois olha que ironia, bonita ou cruel:

Eu vi

Eu te vi além do papel

Além da máscara, além do papel

 

E agora? 

Cadê teu esconderijo?

Cadê teu disfarce antigo

Teu velho truque defensivo?

 

Porque quando alguém enxerga de verdade

Não sobra muito espaço pra encenação de liberdade

Não sobra palco pra tua falsa identidade

Nem argumento pra tua superficialidade

 

Eu sei dos teus gatilhos

Do teu vício em controle

Desse padrão cansado que você não recolhe
Desse ciclo repetido que nunca se dissolve

 

Criar distância

Testar limite

Provocar até ver quem desiste

Até provar a si mesmo que ninguém insiste

 

Empurrar quem chega perto, sem perceber

Só pra depois bater no peito e dizer:

“Tá vendo? Eu sabia. Ninguém fica."

Como se fosse o mundo, e não tua própria dinâmica

 

Mas deixa eu te atualizar, com a frieza que te convém:

Esse história já saturou, já perdeu refém

Já ficou óbvio, previsível também

Já não sustenta mais ninguém

 

Tá velho

Tá óbvio

Tá implorando por um desfecho novo

Porque até tua dor já cansou desse jogo

 

Você se acha imprevisível?

Que plot twist incrível...

Pena que eu te leio como bula de remédio

Efeitos colaterais já descritos, diagnóstico médio

 

Você é refém

Do medo

Da fuga constante sem enredo

De uma lógica torta que não leva a lugar nenhum cedo

 

Refém da ideia de que, se ninguém te conhece por inteiro

Ninguém pode te rejeitar por inteiro

Então você se fragmenta primeiro

Pra nunca se entregar verdadeiro

 

Mas adivinha?

 

Já era

Eu entrei

Eu vi sem espera

Sem filtro, sem quimera

 

Eu entendi cada peça aí

Cada mecanismo tentando fugir

Cada camada tentando mentir

Cada parte que você tentou esconder de si

 

Eu desmontei teu labirinto, fio por fio...

Sem pressa, sem desvio

E no centro de tudo aquilo vazio…
Só tinha medo

E um eco frio.



— Naiumi

São Paulo.

 

© Todos os direitos reservados.

  • Autor: Naiumi (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de abril de 2026 21:39
  • Comentário do autor sobre o poema: Nem toda distância é maturidade, muitas vezes, é incapacidade de sustentar vínculo. "Manual de um Covarde Emocional” descreve, de forma direta, o funcionamento de quem evita a própria vulnerabilidade a qualquer custo. Pessoas que constroem uma imagem de frieza, independência ou desapego não por escolha consciente, mas como mecanismo de defesa diante do medo de rejeição, exposição e abandono. Esse padrão não afeta apenas quem está ao redor, embora cause confusão, insegurança e desgaste emocional em quem tenta se relacionar. Ele também aprisiona quem o sustenta. Ao evitar o envolvimento real, essa pessoa impede a construção de vínculos saudáveis, reforça ciclos de solidão e mantém intactas as próprias feridas, que nunca são elaboradas. O resultado é repetição: aproxima, recua, testa, afasta. E, ao final, confirma a própria crença de que ninguém permanece, sem perceber que foi a própria dinâmica que inviabilizou a permanência. Esse poema nomeia, expõe e evidencia suas consequências: relações instáveis, desgaste emocional mútuo e um isolamento que não é liberdade, mas manutenção do próprio medo.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 5
  • Em coleções: Não Esquecer o Passado.


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