Para de fingir
Sério, para de atuar
Esse personagem frio já cansou de performar
De existir só pra se esconder de encarar
O inacessível, o incompreendido, o inalcançável…
Querido, isso não é raro, é só descartável
Um clichê mal feito, previsível demais
Um roteiro fraco que já não convence mais
Porque eu te li
Te saquei
Te decorei como erro repetido
Padrão que insiste e nunca se corrige, eu sei
Te li como quem lê manual barato
Folha amassada, roteiro ingrato
Cada linha prevendo teu próximo ato
Cada silêncio gritando teu retrato
E agora… não tem mais volta, não tem mais véu
Você não me engana, nem a você, nem ao papel
A máscara caiu no meio do processo
E o que sobrou foi só medo em excesso
Esse teatro de quem “não sente”
De quem se acha acima da própria gente
Inteligente demais, frio demais, distante demais…
Cansativo demais pra sustentar sinais
Tá podre. Tá visível
Tá escancarado
Tá exalando um medo mal disfarçado
Um desespero quieto, mal camuflado
E eu?
Eu vi
Cada fio dessa farsa costurada aí
Cada mentira vestida de “sou assim”
Esse teu “caos” não me convence mais
É só desculpa velha vestida de sagaz
Porque é muito mais fácil bancar o blasé
Do que admitir que você sente pra valer
Você sente
E sente pra caralho
Mas prefere se esconder nesse personagem falho
Num teatro interno que já virou atalho
Debocha, disfarça, posa de quem não liga
Se esconde atrás de uma ironia antiga
Mas no fundo… é só medo travestido de intriga
Uma guerra interna que nunca cicatriza
E deixa eu te contar uma coisa que talvez doa:
Você não é livre, se aprisionou à toa
Virou refém da própria construção
Arquiteto e prisioneiro da mesma ilusão
Você é refém do jogo que criou
Do roteiro frio que escreveu e decorou
Do personagem que você mesmo alimentou
Até esquecer quem você realmente é ou foi
Esse “eu não me importo” virou tua prisão
Uma cela invisível cheia de negação
Sem grade, sem chave, sem solução
Só ecoando vazio dentro do coração
E a verdade?
Ah… ela é simples assim:
Você se importa mais do que admite pra si
E isso te corrói por dentro, até o fim
Te quebra
Te consome
Te deixa em guerra com o próprio nome
Com tudo aquilo que você esconde
Você morre de medo, não é charme, nem estilo
É pavor bruto, visceral, primitivo
Medo de sentir e não ser correspondido
De se ver exposto e sair ferido
Medo de amar e não ser amado
De se entregar e sair despedaçado
De confiar… e ser traído
De ser real, e não suportado
Então você se fecha
Se blinda
Se torna ausência contida
Uma presença fria, quase esquecida
Vira gelo
Vira pedra
Vira muro que ninguém atravessa
Um sistema de defesa que nunca cessa
Mas eu sei o que existe por trás disso tudo:
Um coração tremendo, confuso e mudo
Um medo tão grande que vira escudo
Um caos interno que você nunca estuda
Você teme que alguém quebre essa casca perfeita
E veja tua versão mais imperfeita
Tua dor mal resolvida, tua mente inquieta
Tua verdade crua, direta
Pois olha que ironia, bonita ou cruel:
Eu vi
Eu te vi além do papel
Além da máscara, além do papel
E agora?
Cadê teu esconderijo?
Cadê teu disfarce antigo
Teu velho truque defensivo?
Porque quando alguém enxerga de verdade
Não sobra muito espaço pra encenação de liberdade
Não sobra palco pra tua falsa identidade
Nem argumento pra tua superficialidade
Eu sei dos teus gatilhos
Do teu vício em controle
Desse padrão cansado que você não recolhe
Desse ciclo repetido que nunca se dissolve
Criar distância
Testar limite
Provocar até ver quem desiste
Até provar a si mesmo que ninguém insiste
Empurrar quem chega perto, sem perceber
Só pra depois bater no peito e dizer:
“Tá vendo? Eu sabia. Ninguém fica."
Como se fosse o mundo, e não tua própria dinâmica
Mas deixa eu te atualizar, com a frieza que te convém:
Esse história já saturou, já perdeu refém
Já ficou óbvio, previsível também
Já não sustenta mais ninguém
Tá velho
Tá óbvio
Tá implorando por um desfecho novo
Porque até tua dor já cansou desse jogo
Você se acha imprevisível?
Que plot twist incrível...
Pena que eu te leio como bula de remédio
Efeitos colaterais já descritos, diagnóstico médio
Você é refém
Do medo
Da fuga constante sem enredo
De uma lógica torta que não leva a lugar nenhum cedo
Refém da ideia de que, se ninguém te conhece por inteiro
Ninguém pode te rejeitar por inteiro
Então você se fragmenta primeiro
Pra nunca se entregar verdadeiro
Mas adivinha?
Já era
Eu entrei
Eu vi sem espera
Sem filtro, sem quimera
Eu entendi cada peça aí
Cada mecanismo tentando fugir
Cada camada tentando mentir
Cada parte que você tentou esconder de si
Eu desmontei teu labirinto, fio por fio...
Sem pressa, sem desvio
E no centro de tudo aquilo vazio…
Só tinha medo
E um eco frio.
— Naiumi
São Paulo.
© Todos os direitos reservados.
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Autor:
Naiumi (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de abril de 2026 21:39
- Comentário do autor sobre o poema: Nem toda distância é maturidade, muitas vezes, é incapacidade de sustentar vínculo. "Manual de um Covarde Emocional” descreve, de forma direta, o funcionamento de quem evita a própria vulnerabilidade a qualquer custo. Pessoas que constroem uma imagem de frieza, independência ou desapego não por escolha consciente, mas como mecanismo de defesa diante do medo de rejeição, exposição e abandono. Esse padrão não afeta apenas quem está ao redor, embora cause confusão, insegurança e desgaste emocional em quem tenta se relacionar. Ele também aprisiona quem o sustenta. Ao evitar o envolvimento real, essa pessoa impede a construção de vínculos saudáveis, reforça ciclos de solidão e mantém intactas as próprias feridas, que nunca são elaboradas. O resultado é repetição: aproxima, recua, testa, afasta. E, ao final, confirma a própria crença de que ninguém permanece, sem perceber que foi a própria dinâmica que inviabilizou a permanência. Esse poema nomeia, expõe e evidencia suas consequências: relações instáveis, desgaste emocional mútuo e um isolamento que não é liberdade, mas manutenção do próprio medo.
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 5
- Em coleções: Não Esquecer o Passado.

Offline)
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