Há dias em que o céu fica suspenso,
num cinza que não pesa, apenas pensa,
e o calor se despede devagar,
como quem não quer mais se explicar.
O ar muda de gosto na boca,
o tempo desacelera, quase toca
um ponto onde tudo se recolhe
e algo antigo, em silêncio, se escolhe.
Há um ritmo que o corpo conhece,
uma maré interna que desce,
como se a vida, em sua precisão,
limpasse por dentro o que já foi verão.
E nesse intervalo exato e profundo,
onde nada parece pertencer ao mundo,
surge uma ausência que não é ausência,
é uma espécie de permanência.
Algo que insiste sem fazer ruído,
que não aceita ser traduzido,
mas orbita, discreto, no centro do ser
como um velho hábito de viver.
E há um pacto, quase esquecido,
de não chamar, de não ter sido,
de manter intacto o não-lugar
onde certas coisas preferem morar.
Mas o corpo, em sua linguagem primeira,
às vezes falha na fronteira,
e deixa escapar, sem permissão,
um eco leve na pulsação.
Não é falta, não é vontade,
não se submete à realidade,
não pede forma, não quer razão,
é só um desvio na direção.
E então passa.
Ou finge passar,
como passam as estações pelo olhar
de quem aprende, sem entender,
que há continuidades
que não dependem de ninguém.
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Autor:
Amanda S. Moraes (
Offline) - Publicado: 29 de abril de 2026 13:55
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
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