Intervalo dos ciclos

Amanda S. Moraes

Há dias em que o céu fica suspenso,

num cinza que não pesa, apenas pensa,

e o calor se despede devagar,

como quem não quer mais se explicar.

 

O ar muda de gosto na boca,

o tempo desacelera, quase toca

um ponto onde tudo se recolhe

e algo antigo, em silêncio, se escolhe.

 

Há um ritmo que o corpo conhece,

uma maré interna que desce,

como se a vida, em sua precisão,

limpasse por dentro o que já foi verão.

 

E nesse intervalo exato e profundo,

onde nada parece pertencer ao mundo,

surge uma ausência que não é ausência,

é uma espécie de permanência.

 

Algo que insiste sem fazer ruído,

que não aceita ser traduzido,

mas orbita, discreto, no centro do ser

como um velho hábito de viver.

 

E há um pacto, quase esquecido, 

de não chamar, de não ter sido,

de manter intacto o não-lugar

onde certas coisas preferem morar.

 

Mas o corpo, em sua linguagem primeira,

às vezes falha na fronteira,

e deixa escapar, sem permissão,

um eco leve na pulsação.

 

Não é falta, não é vontade,

não se submete à realidade,

não pede forma, não quer razão,

é só um desvio na direção.

 

E então passa.

 

Ou finge passar,

como passam as estações pelo olhar

de quem aprende, sem entender,

que há continuidades

que não dependem de ninguém. 

  • Autor: Amanda S. Moraes (Offline Offline)
  • Publicado: 29 de abril de 2026 13:55
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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