O Peso Que Nunca Foi Meu

Naiumi Rodrigues



Sabe…

Por muito tempo eu andei curvada

Com as mãos cheias de uma dor emprestada
Carregando o que nunca foi minha jornada

 

Carreguei o teu peso como se fosse destino

Teu caos, teu abismo, teu desatino

Teus traumas grudados no meu caminho

Como se salvar você fosse salvar meu próprio ninho

 

Teus silêncios

Teus sumiços sem aviso

Teus jogos, tuas crises, teu amor indeciso

Teu vazio ecoando dentro do meu juízo

 

E o pior?

Eu aceitei

Segurei o que nunca me pertenceu

Como se te curar fosse me salvar do breu

 

E sem perceber, que ironia cruel

Eu virei ré no tribunal do teu papel

Acusada por sentir demais

Julgada por amar além do que você é capaz

 

Me convenci, pouco a pouco, em erosão:

“Talvez o erro seja a minha emoção.”

Talvez eu fosse intensa demais

Profunda demais pra caber nos teus sinais

 

Sensível demais

Questionadora demais

Viva demais pra quem foge de si

Inteira demais pra quem vive pela metade aqui

 

Talvez amar assim fosse um defeito fatal

Um excesso incômodo, quase anormal

Um tipo de entrega que assusta quem mente

Um tipo de verdade que fere quem mente pra gente

 

Então eu tentei me podar

Me cortar em versões menores

Me encaixar em espaços piores

Me diminuir pra caber nos teus horrores

 

Me silenciei pra não te assustar

Me moldei pra não te afastar

Como se desaparecer aos poucos

Fosse a forma certa de amar

 

Mas o tempo…

Ah, o tempo não negocia ilusão

Ele vem como lâmina limpa

Cortando mentira da percepção

 

E foi ele que me mostrou, sem piedade

O problema nunca foi minha intensidade

Nunca foi minha forma de sentir

Nem minha coragem de existir

 

Nunca foi meu carinho, sem ensaio

Sem meio-termo, sem atalho

O problema sempre foi o teu desmaio

Tua fuga constante do próprio abalo

 

Você.

 

Você que colocou nas minhas mãos

Uma responsabilidade que sempre foi tua 

Se encarar, se sustentar

Se reconstruir na rua

 

Você que quis ser salvo sem querer mudar

Que quis ser amado sem saber amar

Que quis abrigo sem oferecer chão

Que quis amor sem responsabilidade na mão

 

E eu ali, achando que era missão

Quando na verdade era só projeção

Tentando te erguer enquanto caía

Achando que aquilo tudo era conexão

 

Mas a vida… ela mostra contraste

Rasga mentira, desmonta disfarce

Escancara o que é amor de verdade

E o que é só dependência em forma de arte

 

Porque eu conheço alguém, e isso muda tudo

Que nunca fez do amor um campo de estudo
Onde eu sou teste, erro ou punição

Onde existir custa culpa e tensão

 

Alguém que, mesmo caindo, nunca me usou de chão

Nunca despejou em mim a própria escuridão
Alguém que sente sem ferir

Que permanece sem me destruir

 

Alguém que ama sem virar prisão

Que entende que vínculo não é contenção

Que é abrigo, não tempestade

Que é presença, não instabilidade

 

Que me olha… e me vê

Que me escuta… e me crê

Que não distorce o que eu sou

Que não me apaga pra caber no que sobrou

 

Que não me faz duvidar da minha verdade

Nem me obriga a pisar em ovos por fragilidade
Que não transforma amor em tensão

Nem sentimento em obrigação

 

E foi olhando isso…

Que tudo ficou gritante

A diferença absurda, quase cortante

Entre amor e algo sufocante

 

Entre quem ama pra se construir

E quem usa o outro só pra fugir

Fugir de si, fugir do espelho

Fugir do próprio desmantelo

 

Fugir da própria dor mal resolvida

Fugir da responsabilidade da própria vida

Fugir do que sente de verdade

E chamar isso de liberdade

 

E não, isso não é provocação

Nem ameaça disfarçada de decisão

Você nunca teve controle sobre mim

Então não confunda isso com jogo, enfim

 

Isso é entendimento

É lucidez sem filtro

É o fim de um ciclo desgastado

Já previsto, já escrito

 

Você precisa entender, mesmo que negue

O mundo não gira no teu descontrole breve

Não orbita teu caos, tua confusão

Nem gira em torno da tua negação

 

Existem relações que não sufocam

Que não esmagam, que não cobram dor

Que não pedem sangue em troca

Pra validar o que chamam de amor

 

Existem amores que não exigem sacrifício

Que não sobrevivem de vício

Que não precisam ferir pra existir

Nem destruir pra persistir

 

E acima de tudo, grava isso:

O problema nunca fui eu

Nunca foi meu sentir

Nem tudo aquilo que em mim floresceu

 

Nunca foi meu viver intenso

Nem meu amor imenso

Nem minha verdade pulsando sem vaidade

Nem minha forma crua de amar com profundidade

 

Eu não sou excesso

Eu não sou erro

Eu não sou o peso que você nunca sustentou inteiro

Nem o reflexo torto do teu desespero

 

— Naiumi

São Paulo, 2 de março de 2026.

 

© Todos os direitos reservados.

  • Autor: Naiumi (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 28 de abril de 2026 16:33
  • Comentário do autor sobre o poema: Nem toda culpa nasce em nós, às vezes, ela é colocada em nossas mãos como se fosse destino. “O Peso Que Nunca Foi Meu” fala sobre carregar dores alheias até esquecer o próprio nome, sobre tentar salvar alguém que nunca quis se salvar e, no processo, quase se afogar junto. É a história de quem confundiu amor com responsabilidade e aprendeu, tarde, que afeto não deve ser sentença. Esse poema é sobre absolvição. Sobre olhar para trás e finalmente entender que o problema nunca foi sentir demais, foi tentar florescer em um lugar que só sabia consumir.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 6
  • Em coleções: Não Esquecer o Passado.


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