Sabe…
Por muito tempo eu andei curvada
Com as mãos cheias de uma dor emprestada
Carregando o que nunca foi minha jornada
Carreguei o teu peso como se fosse destino
Teu caos, teu abismo, teu desatino
Teus traumas grudados no meu caminho
Como se salvar você fosse salvar meu próprio ninho
Teus silêncios
Teus sumiços sem aviso
Teus jogos, tuas crises, teu amor indeciso
Teu vazio ecoando dentro do meu juízo
E o pior?
Eu aceitei
Segurei o que nunca me pertenceu
Como se te curar fosse me salvar do breu
E sem perceber, que ironia cruel
Eu virei ré no tribunal do teu papel
Acusada por sentir demais
Julgada por amar além do que você é capaz
Me convenci, pouco a pouco, em erosão:
“Talvez o erro seja a minha emoção.”
Talvez eu fosse intensa demais
Profunda demais pra caber nos teus sinais
Sensível demais
Questionadora demais
Viva demais pra quem foge de si
Inteira demais pra quem vive pela metade aqui
Talvez amar assim fosse um defeito fatal
Um excesso incômodo, quase anormal
Um tipo de entrega que assusta quem mente
Um tipo de verdade que fere quem mente pra gente
Então eu tentei me podar
Me cortar em versões menores
Me encaixar em espaços piores
Me diminuir pra caber nos teus horrores
Me silenciei pra não te assustar
Me moldei pra não te afastar
Como se desaparecer aos poucos
Fosse a forma certa de amar
Mas o tempo…
Ah, o tempo não negocia ilusão
Ele vem como lâmina limpa
Cortando mentira da percepção
E foi ele que me mostrou, sem piedade
O problema nunca foi minha intensidade
Nunca foi minha forma de sentir
Nem minha coragem de existir
Nunca foi meu carinho, sem ensaio
Sem meio-termo, sem atalho
O problema sempre foi o teu desmaio
Tua fuga constante do próprio abalo
Você.
Você que colocou nas minhas mãos
Uma responsabilidade que sempre foi tua
Se encarar, se sustentar
Se reconstruir na rua
Você que quis ser salvo sem querer mudar
Que quis ser amado sem saber amar
Que quis abrigo sem oferecer chão
Que quis amor sem responsabilidade na mão
E eu ali, achando que era missão
Quando na verdade era só projeção
Tentando te erguer enquanto caía
Achando que aquilo tudo era conexão
Mas a vida… ela mostra contraste
Rasga mentira, desmonta disfarce
Escancara o que é amor de verdade
E o que é só dependência em forma de arte
Porque eu conheço alguém, e isso muda tudo
Que nunca fez do amor um campo de estudo
Onde eu sou teste, erro ou punição
Onde existir custa culpa e tensão
Alguém que, mesmo caindo, nunca me usou de chão
Nunca despejou em mim a própria escuridão
Alguém que sente sem ferir
Que permanece sem me destruir
Alguém que ama sem virar prisão
Que entende que vínculo não é contenção
Que é abrigo, não tempestade
Que é presença, não instabilidade
Que me olha… e me vê
Que me escuta… e me crê
Que não distorce o que eu sou
Que não me apaga pra caber no que sobrou
Que não me faz duvidar da minha verdade
Nem me obriga a pisar em ovos por fragilidade
Que não transforma amor em tensão
Nem sentimento em obrigação
E foi olhando isso…
Que tudo ficou gritante
A diferença absurda, quase cortante
Entre amor e algo sufocante
Entre quem ama pra se construir
E quem usa o outro só pra fugir
Fugir de si, fugir do espelho
Fugir do próprio desmantelo
Fugir da própria dor mal resolvida
Fugir da responsabilidade da própria vida
Fugir do que sente de verdade
E chamar isso de liberdade
E não, isso não é provocação
Nem ameaça disfarçada de decisão
Você nunca teve controle sobre mim
Então não confunda isso com jogo, enfim
Isso é entendimento
É lucidez sem filtro
É o fim de um ciclo desgastado
Já previsto, já escrito
Você precisa entender, mesmo que negue
O mundo não gira no teu descontrole breve
Não orbita teu caos, tua confusão
Nem gira em torno da tua negação
Existem relações que não sufocam
Que não esmagam, que não cobram dor
Que não pedem sangue em troca
Pra validar o que chamam de amor
Existem amores que não exigem sacrifício
Que não sobrevivem de vício
Que não precisam ferir pra existir
Nem destruir pra persistir
E acima de tudo, grava isso:
O problema nunca fui eu
Nunca foi meu sentir
Nem tudo aquilo que em mim floresceu
Nunca foi meu viver intenso
Nem meu amor imenso
Nem minha verdade pulsando sem vaidade
Nem minha forma crua de amar com profundidade
Eu não sou excesso
Eu não sou erro
Eu não sou o peso que você nunca sustentou inteiro
Nem o reflexo torto do teu desespero
— Naiumi
São Paulo, 2 de março de 2026.
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Autor:
Naiumi (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 28 de abril de 2026 16:33
- Comentário do autor sobre o poema: Nem toda culpa nasce em nós, às vezes, ela é colocada em nossas mãos como se fosse destino. “O Peso Que Nunca Foi Meu” fala sobre carregar dores alheias até esquecer o próprio nome, sobre tentar salvar alguém que nunca quis se salvar e, no processo, quase se afogar junto. É a história de quem confundiu amor com responsabilidade e aprendeu, tarde, que afeto não deve ser sentença. Esse poema é sobre absolvição. Sobre olhar para trás e finalmente entender que o problema nunca foi sentir demais, foi tentar florescer em um lugar que só sabia consumir.
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 6
- Em coleções: Não Esquecer o Passado.

Offline)
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