Quase Nem Percebi

Naiumi Rodrigues



Ei, guri…
Sabe o que eu percebi?
Que no fundo você nunca cresceu
Nunca sorriu verdadeiramente pra si

 

Só vestiu tua casca de “homem maduro”,
Mas por dentro era só ranço, caco e muro
Um vazio disfarçado de postura
Um menino perdido bancando estrutura

 

Fingiu ser abrigo…
Mas virou castigo
Fingia cuidado com voz macia
Mas era laço apertado que me prendia

 

E eu…
Boba, cega, surda
Achando que aquilo era amor
Mas era nó disfarçado de ternura

 

Você sorria bonito…
Mas bastava eu te enfrentar
Que saía o grito escondido
A máscara começava a rachar

 

A voz subia, a cara fechava
Teu corpo tremia, tua boca travava
E qualquer coisa que eu dissesse…
Pra você já virava sentença brava

 

Pra ti era ofensa
Pra ti era ataque
Pra ti tudo virava problema
Mesmo quando era só um detalhe

 

Bastava eu discordar…
Que você vinha se justificar
“Não é minha intenção, você que entendeu mal…”
Engraçado, pra você nunca é, pra mim sempre foi o final

 

Mas quando eu dizia:
“Não é minha intenção…”
Ah… aí sim você cravava
Em mim toda condenação

 

E eu?
Eu me calava
Eu acreditava
Eu me dobrava e me apagava

 

Eu me moldava…
Pra caber no espaço apertado
Do teu ego inflado
Do teu mundo desregulado

 

Enquanto você se fazia de bonzinho
Protetor, fofo, quase divino
Mas no backstage dessa peça bonita…
Era controle, cobrança e ferida explícita

 

E eu caía…
Ai, como eu caía
Porque tua palavra vinha suave
Mas por trás… era lâmina fria

 

Era faca
Era chave
Chave pra me trancar por dentro
Pra me silenciar lentamente

 

Pra me fazer duvidar
Pra me fazer questionar
Pra me fazer acreditar
Que o erro era só meu lugar

 

Você me fez pensar…
Que tua dor era culpa minha
Que tua crise me pertencia
Que eu era a origem da tua ruína

 

Que amar você…
Era abrir mão de mim
Era escolher você sempre
E matar qualquer outro “sim”

 

E você é bom, eu sei
Bom de fala, bom de envolver
Bom de seduzir, bom de iludir
Bom de fazer parecer… que tudo gira em você

 

Porque sempre foi, né?
Sobre você
Sobre teu ego, teu centro
Teu mundo que não sabe ceder

 

Mas eu percebi

Você só mostrava esse lado podre
Quando eu tentava sair
Quando eu começava a ver…


Quando eu ousava não mais cair

Quando eu te questionava
Quando eu enxergava teu jogo sujo
Teu truque repetido, teu discurso gasto


Teu controle disfarçado de afeto raso

E aí vinha o teu teatro…
O mesmo, barato
Cara de ofendido, de menino quebrado


De alguém que só queria ser amado

E eu…
Me perdia também
Me esquecia também


Presa na tua distorção do bem

Porque tua manipulação
Vinha coberta de proteção
Com voz doce, gesto leve


Mas intenção de prisão

Só que hoje eu vejo
E falo, mesmo com medo
Que teu amor não é abrigo


É jaula, é veneno cedo

É prisão
É controle
É desejo distorcido


É um laço que te engole

Ei, guri
No final, você é só isso:
Um menino perdido no próprio abismo


Um vazio tentando parecer compromisso

Casca sem fruto
Espinho sem flor
Corpo presente…


mas vazio de amor

E eu…
Que achei que ia te salvar
Quase me afoguei tentando te amar
Quase deixei de me enxergar

 

Quase deixei de me amar
Quase esqueci quem eu sou
Quase virei tua sombra…
Quase me perdi por completo, onde você me levou

 

Mas hoje…
Eu quebro teu espelho
Arranco teu reflexo de mim
Desfaço teu efeito vermelho

 

Porque tua sombra…
Não vive mais aqui
Não respira mais em mim
Não dita mais quem eu devo ser assim

 

Você não me quebrou
Só me descascou
E agora eu vejo quem eu sou
sem o peso que você deixou

 

E agora…
Eu volto a ser fruto
Mas fruto meu
Inteiro. Vivo. Absoluto

 

E nunca mais teu

 

— Naiumi

São Paulo, 2025

 

© Todos os direitos reservados.

 

  • Autor: Naiumi (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 27 de abril de 2026 16:52
  • Comentário do autor sobre o poema: Às vezes, a prisão não vem com grades: vem com voz mansa, cuidado aparente e promessas suaves. “Quase Nem Percebi” fala sobre o instante em que o encanto começa a falhar, quando o que parecia abrigo revela seu verdadeiro nome: controle. É sobre perceber, tarde demais, que nem todo afeto protege e que algumas mãos acariciam só para aprender onde apertar. Esse poema nasce da lucidez dolorosa de enxergar alguém além da máscara, e de entender que sobreviver também é ir embora.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 3
  • Em coleções: Não Esquecer o Passado.


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