Eu tinha uma arma, mas só você sabia que eu não sabia atirar.

Luana.amorim@


Em vigílias tardias, quando o mundo se cala
e até a esperança parece recolher-se às sombras,
penso — com amarga lucidez —
quão inúteis são os desejos que ainda cultivo.
Rogo em silêncio,
não por grandezas, não por glórias,
mas por migalhas de ternura,
por um amor que não fira,
por uma vida que não me pese tanto existir.
E, ainda assim,
até esses pequenos anseios
me são negados como se fossem excessos.
Trago em mim um coração antigo,
não de idade, mas de dor —
feito criança esquecida ao relento,
dessas que já não choram alto,
pois aprenderam que ninguém virá.
Espero… ah, como espero —
não por milagres, mas por manhãs menos cruéis,
por dias que não me empurrem contra mim mesmo.
Mas o tempo, indiferente,
repete sua frieza
como sentença que nunca se revoga.
E a gentileza — dizei-me, onde jaz?
Foi sepultada sem luto, sem memória,
ou apenas deixada à míngua
num mundo que já não reconhece sua face?
Restaram-nos os gritos,
as mãos duras, os olhares vazios,
e essa estranha aceitação da dor
como se fosse parte natural da respiração.
Vivo, pois, à beira do que não chega:
o dia melhor, a data prometida,
a esperança adiada para um amanhã
que sempre se afasta um passo além.
E, pouco a pouco,
descubro — com frio na alma —
que talvez eu não viva,
apenas aguarde.
Mas entre todas as feridas,
há uma que não cessa,
uma que sangra em silêncio mais fundo:
tu.
Tu, que sabias —
com precisão quase sagrada —
de minha incapacidade de ferir,
de minha alma desarmada diante do mundo,
não me protegeste.
Não.
Foste além —
ergueste a mão que eu jamais ergueria,
fitaste-me sem tremor,
e fizeste do meu peito
teu alvo mais fácil.
E assim, sem ruído, sem culpa aparente,
mataste em mim não a vida —
mas a fé
de que alguém, algum dia,
pudesse escolher
não ferir.
Tu, que sabias

que eu nunca aprenderia a ferir, tu que sábias, que eu tinha uma arma, mas não sabia atirar

não me protegeste.

Foste tu

quem mirou,

quem escolheu,

quem atirou

— exatamente

onde ainda havia amor.

  • Autor: Luana.amorim@ (Offline Offline)
  • Publicado: 27 de abril de 2026 14:36
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 2


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