Olhar e Ver

Aira Lirien

 

Olhar é como um sinal de que a pessoa não tá cega, não tem controle sobre os olhos e por isso andam na rua.

 

Pé ante pé, mão no bolso, desejo de vidro blindado.  

 

Olhar é como aquele turista que fotografa o santo mas não reza a novena.

 

entra na loja do outro, prova o perfume e devolve o frasco.  

 

Olhar é currículo, é bons modos, é "tá bonita" sem assinar embaixo.  

 

É mãe que diz "tô bem" de atestado na mão enquanto pisa no meu peito.  

 

Olhar é público, é frio, é etiqueta que não sua.  

 

Passa, não fica, consome a imagem, cospe o caroço.  

 

 

 

 

Mas ver — ah, ver me entrega, ver me deseja, ver é aquela pessoa que me vê na rua e me chama pelo nome.

 

É quem faz questão de me notar, ver é desejar e valorizar, ver é faca e reza: reconhece a carne, nomeia a fome. 

 

Não sai da loja com dívida, sem promessa, sem dono.  

 

Ver me aponta no meio da feira e grita: "é ela",  

 

mesmo que eu esteja de costas, mesmo que eu não queira.  

 

Ver é se entregar e assumir a exposição.

 

Quem só olha me deixa inteira mas vazia, um cabide sem roupa.  

 

Então não me olha se não for pra ver.  

 

Não me vitrine se não for pra pagar o preço de me tirar da prateleira.

  • Autor: Aira Lirien (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 27 de abril de 2026 12:33
  • Categoria: Surrealista
  • Visualizações: 5
  • Usuários favoritos deste poema: Rogério, Versos Discretos
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