Quantas mãos, calcinadas pelo sal das eras,
registraram e alinharam as cordas que me trouxe, tonta e firme, a este instante?
Quantos ventres em noites sem luar
guardaram, como brasa sob a fogueira, a centelha que sou?
O resultado de um cálculo específico e infinito,
cada antepassado, um golpe de dados.
Cada amor partido ou consumado,
por onde a vida escorria, teimosa, até minha garganta.
Foram precisos milhões de abraços clandestinos,
de pausas na guerra para beber água e desejar,
de mortes que não aconteceram
para que a linha de sangue não se partisse.
E eu, que não pedi para vir,
sou o ponto de encontro de todas as solidões, amores e paixões antigas.
Dentro de mim, clamam uníssonos,
o camponês que não viu o mar,
a mulher que pariu sob bombas,
o homem que dançou antes de ser fuzilado,
a criança que riu ao ver uma flor na sarjeta.
Sou o agora, mas o agora é um assombro.
Pois cada célua minha é um arquivo de lutos e festas,
cada suspiro, uma herança de quem sufocou para que eu respirasse.
Mas escuta,
o mesmo ligamento que me junta ao primeiro grito da espécie
é a navalha que me separa de tudo que fui.
Não sou o resultado, sou a única exceção em um a um milhão.
Nenhuma outra dobra do tempo
produzirá este mesmo espanto.
E por isso, amada errância e acerto,
eu agradeço sem joelhos, reverencio sem deuses,
à anônima que decidiu ficar e amamentar,
ao soldado que não matou,
à mãe que escolheu ficar,
ao pai que partiu para que o filho tivesse fome menos cedo.
Existir é a mais antiga das revoltas contra o nada.
E eu, poema remendado de ossos, músculos, fluxos e esquecimentos,
sou, neste exato segundo,
a língua afiada do universo dizendo sim
contra todas as probabilidades.
Fecha-se o livro aberto do tempo.
Vira-se a página da carne.
E o que resta, se não o espanto?
Amar o acaso como se fosse destino.
Viver como quem rouba uma brasa do incêndio original.
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 26 de abril de 2026 01:57
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 2

Offline)
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