Na última hora,
quando o tempo deixar de ser medida
e passar a ser silêncio,
quando o relógio desistir de contar
e a vida, enfim, soltar o último suspiro,
quem serei eu?
Serei ainda nome?
Ou apenas eco?
Serei memória viva em alguém
ou um pensamento que se desfaz
como poeira atravessando a luz da manhã?
O mundo…
ah, o mundo —
esse gigante indiferente —
não vai parar.
As ruas continuarão cheias,
o sol cumprirá o seu destino de nascer,
e a lua, fiel, visitará a noite
como se nada tivesse acontecido.
Na minha ausência,
os pássaros não mudarão o canto,
os rios não alterarão o curso,
e as horas…
as horas não se curvarão em luto.
Seguirão, impiedosas,
como sempre seguiram,
porque nunca foram minhas.
E então compreendo:
nunca fui dono do tempo,
apenas um instante dentro dele.
Mas na última hora—
essa fronteira onde o ser e o não-ser se tocam—
talvez não haja tristeza,
nem esse medo que agora me veste.
Talvez haja apenas um desatar lento,
um desaprender de existir,
como quem larga um peso antigo
sem saber que o carregava.
O corpo ficará,
inerte, devolvido à terra,
matéria reconhecendo matéria.
Mas e aquilo que fui?
Aquilo que sentiu, que sonhou, que amou?
Aquilo que perguntou ao vazio
e nunca teve resposta?
Será que se dissolve
ou se transforma?
Na última hora,
talvez eu veja a vida inteira
não como uma sequência de dias,
mas como um único sopro —
breve, inexplicável, irrepetível.
E então entenderei:
não fui um cadáver à espera do fim,
fui um milagre breve
que acreditou ser eterno.
Se o mundo não parar por mim,
não é porque fui nada…
mas porque o mundo nunca pertenceu a ninguém.
E se ninguém sentir a minha falta
como eu temi,
ainda assim,
em algum lugar invisível,
ficará a marca silenciosa
de eu ter sido.
Porque existir
mesmo que por um instante
já é alterar o infinito.
E na última hora—
quando tudo parecer desaparecer—
talvez seja justamente aí
que tudo comece.
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Autor:
Amarildo gastão (
Offline) - Publicado: 23 de abril de 2026 10:50
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 2

Offline)
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