As Velhas Margens

werner

   Há quem diga que sonhos, aqueles que acompanham o sono desde a infância, são dados de refúgio aos cenários mais joviais e escondidos da mente. Porém eu os rejeito — e os enojo. Porque, para mim, levam a lugares familiares e os transformam em cenas repugnantes.

   Foi num sonho que vi a Lua emergir colada ao Sol vespertino. Vaguei por um tempo, sem rumo, sob uma luz intensa típica do verão, aquele verão que faz-se borbulhar as marés e dissolve os gramados; e atravessei uma divisória nítida que separava a escuridão álgida da Lua e a fervente ensolarada. E mais à frente, seguindo ao oeste, contemplei os cânions náuticos afundando infinitamente entre as cachoeiras. Caminhei por pontes que atravessavam aqueles cânions, e, lá no fundo, enxerguei alguns fluxos de bolsas d'água que criavam ondas de lodo escurecido. E, em um ritmo acelerado, aquelas águas giravam, rodopiavam e respingavam gotas negras nas rochas em volta, e então pintavam enormes faces tristes nos meios esburacados. Espanadavam loucamente contra as paredes, e então estremeciam os rostos rochosos, lançando sobre mim a umidade fragrante da aurora de uma profundidade torturante.

 

   Enquanto perambulava à mercê daquele precipício, esperando, com ânsia, o momento em que eu despertaria, observei que ao leste, além das ondulações de lodo, começaram a se erguer diversas torres e muros altos, próximos a sulcos e fossas que serpenteavam entre as rochas. Imundas e funestas, borbulhantes e onduladas, aquelas águas pareciam sugar a vitalidade das antigas margens, como se agora alimentadas por alguma fonte desconhecida de mau odor ou maldição. Andando mais à frente, pouco além da ponte, o chão endureceu em concreto e a vegetação murchara completamente. Onde antes, na zona sombria da lua, via-se panoramas horizontais de prados, bosques e capões, agora jazia uma cidade em simultânea decadência e crescimento. Pois as grandes fileiras de palmeiras converteram-se subitamente em urnas de terra, e as árvores em postes remendados; enquanto, no litoral, os sulcos acabaram por engolir e apodrecer todos os rios. Ainda assim, em um terreno que, agora, reinava o crepúsculo estéril, pouco dos ramos de algas e relvas ainda abraçavam o concreto, e brilhavam com um verde fantástico que, por pouco, não havia regredido às ruínas. 

   Mais adiante, já enojado de tanta repulsa, fui parado, subitamente, diante das vielas que franqueavam as torres e os muros da cidade. Em correntes de marés rasas emergiram alguns percevejos dormentes, uns isolados e outros em grupos incontáveis. Pairaram sobre mim, com suas carapaças rígidas, grudadas por uma estranha viscosidade e coroadas por crostas amareladas. Aquelas criaturas se acomodaram rapidamente nas frestas úmidas e se deleitaram ao esconderem seus horrores nas sombras. Contudo, pus-me a caminhar entre eles, tentando explicar-lhes, numa voz rouca, relatos do que se tratava aquele mundo. Me espantei; pois ao ouvirem tantas loucuras e certezas surreais saírem de lábios tão sinceros, não se indignaram como seria de esperar. E como se compartilhassem um entendimento alheio à minha compreensão, gargalharam. Gargalharam em coletivo, zombando-me com júbilos estridentes, e acabaram por me apelidar de “desamparado maldito”. Agora, o estranhamento familiar das águas encontrava companhia na grotesca vida rastejante.

  • Autor: werner (Offline Offline)
  • Publicado: 23 de abril de 2026 05:52
  • Categoria: Conto
  • Visualizações: 2


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