Conto: “Diabo-Véio, Ouro e Cachaça” – Vila Boa
O sol de 1726 rachava o cascalho do Rio Vermelho. O arraial de Sant’Anna fedia a suor, pólvora e promessa. E no meio da praça, debaixo do pelourinho ainda novo, seu Bartolomeu Bueno da Silva Filho, o Anhanguera Segundo, limpava o suor com a manga e conversava com o futuro.
— Seu Antônio, me diga uma coisa — perguntou o alferes Silva, magro de fome e de juízo — cadê o ouro que vossa mercê prometeu pra El-Rei e pra nós?
— Calma, alferes. Ouro tem hora. Igual mulher brava e juro de padre: aparece quando quer — respondeu Anhanguera, cuspindo longe. — Mas o índio Goyá já entregou o caminho. Só falta cavar.
Da moita, Zé Caboclo, guia contratado a laço e susto, resmungou em tupi fino:
— _Anhanguera… diabo velho…_ Queima água pra assustar índio, mas não queima imposto não, né?
— Escutei, Zé — o bandeirante riu, mostrando dente de ouro tirado de outro. — E se eu queimo água, queimo você também. Agora anda. Me mostra onde esse cascalho brilha.
As guerras
Três luas depois, a bateia já cantava. Mas junto cantava flecha. Os Kayapó desceram a serra como chuva.
— Toca fogo, sargento! — gritou Anhanguera, enquanto se escondia atrás de um toco. — É ordem d’El-Rei!
— Ordem d’El-Rei é o senhor sair da moita, capitão! — berrou o sargento, com uma flecha no chapéu e a coragem no gogó.
Morreu Kayapó, morreu paulista, morreu um mulato chamado Cosme que até hoje não sabe de que lado tava. O capelão Frei Gaspar correu no meio do tiroteio, erguendo a cruz:
— Meus filhos, parai! O quinto é de Deus!
— O quinto é d’El-Rei, frei — corrigiu o guarda-mor, recolhendo pepita do chão enquanto se benzia. — Deus que se entenda com Lisboa.
Os escravos
Quem tirava o ouro mesmo era João Mina. Negro nagô, comprado em Salvador por trezentos réis e uma mula manca. De dia bateia, de noite banzo. Um dia o feitor Chico Pitanga pegou ele mastigando.
— Abre a boca, peste! Tá comendo ouro, desgraçado?
João abriu. Mostrou a língua e um sorriso sem dois dentes:
— Tô comendo saudade, sinhô. Ouro quem come é vosmecê, e nem mastiga.
Feitor ficou vermelho, mas não achou pepita. Só achou verso. De raiva, mandou chibata. João apanhou calado. Naquela noite cagou no mato e achou três grãos de ouro na bosta. Enterrou, como quem planta. “Terra come tudo”, pensou. “Um dia devolve”.
As mortes e a cômica
Ouro acabou antes da cachaça. Em 1755 o arraial já era mais dívida que gente. O Capitão-Mor Inácio mandou erguer pelourinho novo, pra “botar ordem”. Na festa, bebeu, tropeçou no próprio pelourinho e quebrou o nariz.
— Valha-me Deus! — gritou, sangrando.
Zé Caboclo passou do lado, carregando lenha, e filosofou:
— Diabo-Véio queima água, mas não amolece pedra, né capitão?
O arraial inteiro batizou: “Capitão Pelourinho”. Até hoje.
Teve mais. João Mina juntou grão por grão, noite por noite, e comprou a alforria. Na semana seguinte, comprou a venda do antigo dono, seu Pitanga, que tinha bebido as terras.
— Ô Pitanga, me vê um gole da sua cachaça — pediu João, agora de botina.
— Pra já, seu João — respondeu o ex-feitor, servindo tremendo. — Anota na conta?
— Anota não. Aqui negro paga à vista e branco deve. Inverteu, né? É a “invertida goiana” — João riu, e o Cerrado riu junto.
O fim
Anhanguera morreu sem ver o quinto que sonhou. Enterraram com arcabuz do lado e dívida do outro. Diz que de madrugada ele aparece no Rio Vermelho, assombrando fiscal de imposto.
— Cadê meu ouro, El-Rei? — pergunta o fantasma.
E o rio responde, batendo cascalho: — Virou pequi, virou viola, virou gente, seu Diabo-Véio. Vai cavar noutro século.
E se você passar em Vila Boa, hoje Goiás Velho, numa noite quente, encosta o ouvido no chão. Vai escutar bateia, corrente, risada e um sussurro:
— Queima água que eu quero ver…
É o Brasil. Veio buscar ouro, achou história. Veio com chibata, ficou com samba. Veio com morte, ficou com reza. E de tanto morrer e rir, acabou parindo Goiás.
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Autor:
GINO (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 22 de abril de 2026 13:17
- Categoria: Conto
- Visualizações: 3
- Usuários favoritos deste poema: Sinvaldo de Souza Gino, Francisco Queiroz

Offline)
Comentários1
Que delícia passear na história tão bem narrada de nossa querida cidade de Goiás Velho! Sempre que posso, vou lá passear. A cidade é pura poesia. Parabéns, poeta, ficou excelente! Um abraço fraterno!
Valeu pelo comentário, também vou lá sempre!!! Obrigado poeta!
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