Aniquilamento silábico

Anna Gonçalves

Ao deitar, todos os dias, já não rezo por clemência  rezo por aniquilamento silábico.
Que tua nomenclatura se desaloje do meu plexo.
Pratico a atração pelo vazio como quem estuda um idioma extinto,
não para falá-lo, mas para esquecer que um dia o soube.

Pratico o vazio com as mãos abertas,
atraio o sumiço como quem atrai o mar,
sabendo que não se abraça,
mas se aprende a boiar.

Há uma impossibilidade tátil em lutar sozinha contra suas várias edições.
Que se tornou um acervo de versões conflitantes.
E eu, a leitora compulsiva que tentou anotar margens
onde não havia margem apenas um texto que se recusava a ser fixado.

A máscara é apenas o rosto que o pânico canonizou.
A migalha é o resíduo de quem confundiu afeto com déficit.
Entendi que não posso vencer uma batalha
onde o inimigo e o campo de guerra são a mesma membrana e o núcleo de uma célula.
Onde não és mais o protagonista dos meus dias, apenas um sintoma.

Então pratico a lei da atração, e atraio o sumiço como quem atrai o sono profundo,
sem histeria, sem ritual, apenas com o cansaço de quem já decorou todas as faces do labirinto.
Peço ao que não responde que me ajude a não precisar mais perguntar.
Peço à lei que rege o que não se vê que me devolva o que nunca se perdeu,
a soberania de não precisar mais te traduzir.

Não quero o fim da história. Quero a falência do arquivo.
Que tuas coordenadas se tornem ruído branco no meu sistema.
Que a saudade, se insistir, precise aprender uma nova língua  uma que eu não falo mais.

Pois já nem luto.
                  [pratico o luto]
Eu desmonto.
E desmontar é mais tranquilo e definitivo do que vencer.

Nice guy 

Deixo aqui uma metáfora para um poema futuro e abstrato,
sem a ideia de que irá ler, pois sei que nunca deixa que a faca entre.
Deixo o relato, sem sequer mais querer entender a tamanha complexidade de ser e
ter que conviver os restos dos meus dias mantendo o protagonista inserido
em mais alguns dias na minha vida.

Mas que ainda refuto uma parte dos meus versos, 
pois o "aniquilamento silábico" falhou,
porque para aniquilar de verdade seria preciso não se importar mais. 
Ninguém que escreve sobre o esquecimento esqueceu de verdade.
Quem esquece, apenas vive. 
E agora, ire praticar todos os dias a arte da vida, que é viver, viver a vida. 

 

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 21 de abril de 2026 09:37
  • Categoria: Surrealista
  • Visualizações: 4
Comentários +

Comentários1

  • Sergio Neves

    SERGIO NEVES - ...perfeito! ...um tema bem inusitado "destrinchado" com uma maestria poética de se admirar! ...derramaste aqui verdadeiramente um poema! ...um belíssimo poema! /// Meu carinho, menina..

    • Anna Gonçalves

      Gratidão, Sergio! Obrigada mesmo pelas palavras



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