Conto: O Concílio do Olimpo: diálogo entre os deuses em Os Lusíadas
As nuvens se fecharam sobre o monte e o trono de Júpiter estalou como trovão. Os deuses chegaram um a um, já sabendo: era o dia de decidir a sorte dos portugueses.
Júpiter bateu o bastão no mármore e cortou o murmúrio.
— Calai-vos todos. Chamei-vos porque os fados falaram. Aqueles homens de ferro e lona hão de passar o Cabo, hão de entrar na Índia. Não sou eu quem ordena. Eu apenas leio. E digo: serão favorecidos.
Vênus deu um passo à frente, os olhos brilhando.
— Enfim, pai! Já não era sem tempo. Essa gente é carne da minha Roma. Têm a fúria nos olhos e o amor na língua. Eu os vi chorar por uma praia distante. Eu os vi rezar antes da batalha.
— Então os proteges? — perguntou Júpiter, já sabendo a resposta.
— Com meu corpo e com meu mar — respondeu ela. — Mandarei minhas ninfas amansar as ondas. Onde houver recife, haverá braço de mulher para desviar a proa.
Baco jogou a taça longe. O vinho escorreu pelo degrau do trono.
— Isso é traição, Vênus! Traição a mim! O Oriente é meu há séculos. Lá sou deus, lá sou festa. Se esses cristãos puserem pé em Calicute, os meus altares viram pedra fria.
— E desde quando o mundo é teu, Baco? — Vênus cruzou os braços.
— Desde que os homens descobriram que a vida é dura demais para ser vivida sóbria! — gritou ele. — Eu não entrego minhas vinhas sem luta.
Marte riu e bateu a lança no chão.
— Gosto de ti quando gritas, Baco. Mas escolhe melhor teus inimigos. Esses portugueses são meus também. Nunca vi povo que gostasse tanto de uma boa guerra.
— Então ficas contra mim, Marte? — Baco cuspiu no chão.
— Fico com quem me diverte — respondeu o deus, mostrando os dentes. — E tu estás velho, Baco. Teu vinho já não embebeda herói.
Netuno se ergueu lento, a barba pingando sal.
— Chega de gritaria. O mar é meu, e ninguém me consultou. Essas naus cortam minha pele sem pedir licença.
— E que decides, Netuno? — perguntou Júpiter, a sobrancelha pesada.
— Decido que estou farto — disse o deus do mar. — Se é para escolher, fico com Baco. Que venha a tormenta. Que o Cabo lhes mostre os dentes. Quero ver se a cruz deles flutua.
Vênus avançou contra Netuno, o dedo quase no peito dele.
— Se afundares um só, eu te arranco as barbas de alga e faço rede pra pescar pérola!
— Experimenta, pomba — rosnou Netuno. — Te afogo junto com eles.
Júpiter se levantou. O Olimpo tremeu.
— Basta! Já decidi: os portugueses passarão. O Fado é maior que teu tridente, Netuno, e maior que tua taça, Baco. Mas não vos proíbo a guerra. Lutai. Sem vossa briga não há glória, e sem glória não há canto.
— Então é isso? — Baco sorriu torto. — Podemos tentar matá-los?
— Podeis — disse Júpiter. — E Vênus pode salvá-los. Que vença o melhor. Ou o mais teimoso.
Marte jogou a capa para trás e saiu andando.
— Já vou afiar a lança. Que comecem os jogos.
Vênus olhou para Baco antes de se retirar.
— Que comece, bêbado. Mas quando eles chegarem à Índia, eu mesma vou te servir o vinho da derrota.
— Veremos, cipriota — respondeu Baco, enchendo outra taça. — Veremos.
E o concílio se desfez em trovão. No mar, as velas de Gama enfunaram com um vento que não era só vento: era amor e ódio de deuses soprando na mesma vela.
-
Autor:
GINO (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 21 de abril de 2026 09:19
- Categoria: Conto
- Visualizações: 2
- Usuários favoritos deste poema: Francisco Queiroz

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.