A Pequena Eremita no Jardim:
Não volto mais lá.
Mas moro na soleira de antigamente,
onde o chinelo ficava torto na porta
e o mar entrava em casa pelos pés descalços.
O sal secava no corpo e virava lembrança.
O portão rangia uma canção de ferro.
Enferrujou por dentro enquanto eu dormia.
Eu era menina de joelho ralado,
correndo no corredor do tempo
onde sempre eram cinco da tarde
e o pão com manteiga nunca esfriava.
As pessoas tinham domingo nos sorrisos,
mas guardavam segunda feira nos olhos.
Eu não lia. Só contava luas na roseira
e dava nome de primo pra cada folha.
Grito era avião passando longe.
Silêncio era cheiro de café no coador de pano.
A TV de tubo esquentava a sala como lareira.
Chiado e fantasma dançavam no vidro.
Eu batia palma e chamava de desenho.
O teto de madeira estalava histórias de cupim,
cada estalo um Natal que eu colecionava.
A piscina guardava o céu de dezembro
entre um picolé e outro, devagar.
Cresci nesse vão de sol e vento.
Catei meus pedaços no quintal
como quem junta figurinha repetida.
Fiz um manto com retalho de espera.
Hoje sou eremita, sou solista
do quintal que só existe quando fecho o olho.
Não tem mais festa lá.
Acendo as luzinhas pisca pisca aqui dentro,
no limiar do peito onde a toalha xadrez
ainda cobre a mesa da churrasqueira.
A roseira floresce sem jardim,
regada com a água que ficou no copo de ontem.
Nostalgia é esse corredor de casa de vó.
Nem dentro, nem fora. Só cheiro de volta.
Beijo o mel do bolo que esfriava na janela.
Enterro o caroço da fruta que amargou.
E sigo. Levo o jardim na bolsa,
junto com concha, bilhete e foto 3x4,
como quem nunca saiu do recreio.
-
Autor:
Lhidria, a rosa rubra. (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 20 de abril de 2026 18:54
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 2
- Em coleções: Melancólia e cafeína..

Offline)
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.