1911

julianahoffmannliska

Anoitece cedo neste outono de 1911,
e a luz se recolhe como uma dama cansada
de tantos salões e silêncios.

Da janela estreita, escuto os pássaros —
seus cantos frágeis parecem cartas não enviadas,
despedidas suspensas no ar frio
que invade sem pedir licença.

O vento toca minha pele
como lembrança antiga,
e há um arrepio que não ouso nomear —
não é só o frio,
é o tempo sussurrando que tudo passa,
até o que nunca chegou a ser.

Seguro minha xícara de chá
com mãos que aprenderam a esperar.
O calor é breve, quase um consolo,
como certas promessas
que a vida fez em voz baixa
e depois esqueceu de cumprir.

Há saudades em mim
que não pertencem a ninguém.
São ausências sem retrato,
vazios herdados de sonhos interrompidos,
como cartas guardadas em gavetas
que jamais terão resposta.

E então sinto — no fundo mais quieto —
essa dor de existir,
tão delicada e tão firme
quanto o cair de uma folha.

Mas ainda assim,
entre o frio e o silêncio,
algo resiste.

Não é alegria — isso seria demais.
Não é certeza — não nesta vida.

É uma chama discreta,
quase invisível aos olhos do mundo,
mas viva o suficiente
para aquecer o espírito.

E eu a guardo,
como guardo este instante,
como guardo a mim mesma:

com cuidado,
com saudade,
e com uma esperança silenciosa
que, apesar de tudo,
recusa-se a morrer.



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