O fogo aquece a água, o café logo se apura,
já não aguardo a garrafa ao fim se consumir.
Aprendi que o destino é mão que não segura
quem, por vontade própria, resolveu partir.
Ruminar o passado foi o deserto meu,
onde a sede de "nós" foi o guia e o sinal.
Mas hoje, sob o sol que o tempo concedeu,
entendo a herança deste pranto final.
Amar é, por vezes, saber ser a partida,
Desatar as amarras presas junto ao cais.
Pois a alma que segue por outrem ferida,
Em nenhum outro porto encontra sua paz.
Busquei o teu peito incontáveis vezes, em cada desatino,
Bati à tua porta, mendiguei teu olhar.
Mesmo quando o desterro era o meu destino,
Lutei pelo que fomos, para nos salvar.
Mas o amor não vive de um esforço isolado,
Nem de quem se retira e apenas se ausenta.
Mantenho, por ora, o meu posto reservado,
Enquanto a esperança, ainda, me sustenta.
Não chamo de renúncia, chamo de entrega,
Deixar que a correnteza siga o seu fluir.
Pois quem ama de fato, a si mesmo se nega,
Para que o outro tenha o direito de ir.
Pois ouvi de tua boca, versista que sucateia minha alma e pálpebras
Que apagas teus rastros verdadeiros sem deixar agonia.
Teu canto é registro que em ti não se arrasta,
De quem, ao escrever, logo se desmemoria.
Hoje dispensas a tinta, tamanha a destreza,
Reescreves a cicatriz na pele, de primeira.
E o instante cáustico, em sua aspereza,
Desfaz-se em teu verso, de forma passageira. Confessas, sem pejo, que alteras os seus vividos,
Trocas o fiel amargo da despedida exata,
Pelo sabor de um fruto jamais colhido,
Mentindo à própria vida em tua rima sendo o próprio equilibrista.
Claro que te feri, como tu me feriu,
pois o dano é a condição da nossa existência humana.
Não há primavera que em flor não resista,
ao inverno rigoroso de uma estação.
Tornar-se presença é aceitar o perigo
da ausência que morde e que faz padecer.
Foi o risco aceito em estar contigo,
a dura sentença de quem quer viver.
Confesso que a alma pedia uma pausa,
um silêncio profundo para o coração.
Mas me vi brilhar os olhos por uma nova causa,
alguém que insiste em ser minha direção.
Ouvi da boca de outrem o que o peito e a carência gritava mas a razão e o coração não queria e dizia não,
ouvi sair da boca e das lágrimas que escorriam até o pescoço,
que faço o seu mundo ser mais farto e feliz,
prometeu-me a mudança, jurou que seria
O porto seguro que eu sempre quis.
Mas me despeço agora e do teu desejo e pensamentos me compadeço,
irei morrer para ti, até o pensamento findar.
Vou sumir dos teus dias, sem deixar endereço,
para que meus caminhos não possas te encontrar.
Não restará rastro, nem mesmo uma herança,
Nem cinza ou resquício de tal consequência.
Sigo o fluxo da vida, pois quem ama alcança a paz de se ausentar... por pura sobrevivência.
Sempre tentando me convencer que posso seguir,
e continuar sem você.
Jogando a chave sem olhar a direção e não dirigir na contra mão...
"Já que sou, o jeito é ser"
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 20 de abril de 2026 00:23
- Categoria: Carta
- Visualizações: 3

Offline)
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