RAMAL DE SUBÚRBIOS
O metrô corria vazio sob a cidade, vagões iluminados por luzes frias e piscantes que tremiam a cada curva dos trilhos. Eram quase duas da manhã. O ar cheirava a metal quente e ao leve odor de lavanda que nunca conseguia esconder o que as pessoas deixavam para trás.
Ele entrou na última estação aberta, terno amassado depois de um plantão longo, pasta na mão. Sentou-se num banco de plástico rachado, olhando para o chão marcado por sapatos de mil noites iguais. Não esperava companhia. Ninguém esperava àquela hora.
Ela entrou dois vagões adiante, mas caminhou devagar até o dele. Olhos cansados que já tinham visto muitas madrugadas iguais. Sentou-se no banco oposto, mas não do outro lado do vagão. A distância era curta o suficiente para que o abismo entre eles ganhasse peso.
O trem acelerou. As luzes das estações passavam como flashes rápidos ,plataformas desertas, cartazes desbotados. Nenhum dos dois falou no começo. Apenas o ruído constante dos trilhos e o balanço leve dos vagões preenchiam o espaço.
Em certa curva mais fechada, ela se inclinou um pouco para frente e quebrou o silêncio com uma frase baixa:
— Você também não consegue ir para casa direto?
Ele ergueu o olhar. Não sorriu. Apenas assentiu. A conversa veio em pedaços: o trabalho que nunca acabava, as horas extras que se acumulavam, a sensação de que tudo se desgastava um pouco mais a cada noite. Palavras simples, quase mecânicas, mas que serviam para afastar, por alguns minutos, o peso da rotina que os dois carregavam.
Os olhares começaram a durar um segundo a mais. Um meio-sorriso dela quando ele fez uma observação seca sobre a cidade que se degradava ano após ano. A forma como ele inclinou o corpo ligeiramente na direção dela ao responder. Pequenos gestos que flertavam com a possibilidade de algo mais, sem nunca nomeá-lo. O trem balançava e os aproximava fisicamente, mas o verdadeiro movimento era outro: uma atração muda, uma curiosidade cansada que surgia no meio da noite.
Quando o trem parou numa estação intermediária e as portas se abriram para ninguém, ela mudou de banco. Sentou-se mais perto. O espaço entre eles diminuiu. Nenhum dos dois disse o que estava pensando, mas o ar ficou mais denso, carregado de uma insinuação que não precisava de palavras. Um toque casual de joelhos que não se afastaram de imediato. Um olhar que descia pelo rosto dele antes de voltar aos olhos. O flerte era quieto, quase resignado, como quem sabe que aquilo era apenas uma pausa breve numa linha que continuava sempre igual.
De repente, o silêncio entre eles se transformou numa coisa viva: como um rato que para de correr dentro de uma parede e fica só ouvindo, esperando o momento de roer algo essencial. O flerte pairava ali, suspenso, sem que nenhum dos dois, ousasse quebrá-lo por completo.
O prazer da companhia alheia surgiu devagar, como um alívio temporário contra a decadência que os dois enfrentavam todas as noites. Por alguns minutos, o metrô pareceu menos degradado, e a sensação de desgaste recuou um passo.
Então, sem aviso, as luzes do vagão piscaram duas vezes e apagaram por três longos segundos. O trem continuou em movimento, mas o escuro repentino deixou apenas o som dos trilhos e a respiração dos dois. Quando a luz voltou, ela estava olhando diretamente para ele, mais perto do que antes. Nenhum dos dois comentou o apagão. O toque ganhou um tom mais afiado, quase perigoso.
Mas nada há mais do que um perigo iminente interrompido por um alerta sonoro: próxima estação...
O trem reduziu a velocidade para a próxima parada. Ela ajeitou a postura, pegou a bolsa e se levantou. Ele permaneceu sentado, olhando para as próprias mãos. Nenhum dos dois disse adeus. Ela desceu na plataforma vazia. As portas se fecharam. O vagão seguiu em frente, agora completamente sozinho.
Ele continuou até o fim da linha. Quando o trem parou na estação terminal, as luzes principais se apagaram parcialmente. Ele desceu, caminhou pela plataforma ecoante e subiu as escadas para a rua. A cidade acima continuava seu lento apodrecimento, com fachadas rachadas e luzes que piscavam sem ritmo.
O prêmio de consolação da noite tinha sido real. Mesmo que Breve.
Mas a decadência que restava era a mesma de sempre lenta, constante, inescapável.
Uma linha que não terminava, uma conversa que não mudava nada, uma atração que desaparecia assim que as portas se abriam. Ele saiu caminhando lentamente pela plataforma vazia , enquanto o metrô, , já se preparava para mais uma volta.
Subiu as escadas e parou um instante na saída da estação. Não por esperança.
Mas porque não havia outro caminho que não aquele que sempre parecia levar a algum lugar
e nunca levava. Porque, no fundo,
subúrbios, subsolos e silêncios
são apenas variações do mesmo destino.
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Autor:
C.araujo (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 18 de abril de 2026 20:44
- Categoria: Conto
- Visualizações: 2

Offline)
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