RAIZES DE UM TEMPO

Carlos Lucena

RAÍZES DE UM TEMPO

Nasci por aqui,
fincado neste chão.
Nunca arrediei o pé,
muito menos o coração.

Vi, neste lugar,
o alvorecer.
Vi os que chegaram
e vi os que partiram.
Vi tantos à campa descer,
mas também vi os que surgiram.

Vi os que de longe vieram,
trazendo sonhos na mala,
e, ao longo da vida, fizeram
o silêncio que ainda fala.

Assisti aos desbravadores,
em lutas incansáveis,
plantando, em cada lugar, flores
em jardins memoráveis.

Vivi a infância sorrindo
nos canteiros da pequena praça,
e, à sombra das árvores, sentindo
a vida transbordar de graça.

Nos tempos de chuva boa,
deixava-me à correnteza,
e, sob a densa garoa,
beijava-me a natureza.

Atravessei os umbrais da mocidade,
vi sonhos mudarem de lugar
e compreendi que a liberdade
não se resume a sonhar.

Quando comecei a entender
e, com outros olhos, ver o mundo,
aprendi que, para viver,
é preciso ver-se profundo.

Foi aqui, neste lugar,
que vivi e viverei.
Vi de tudo se passar —
até quando, não saberei.

Vi aqueles que amavam
e que trouxeram liberdade;
porém também vi os que deixavam
feridas abertas na cidade.

Hoje, já tão distante,
ainda insisto em sonhar,
tentando enxergar adiante
algo que venha a mudar.

Nasceu no século dezenove,
atravessou o século vinte
e chegou ao vinte e um;
mas tudo ainda se move
sem progresso algum.

Há tanto tempo se arrasta
essa luta sem resultado,
e quase ninguém se basta
para mudar o traçado.

Falta seriedade,
desconhece-se o respeito;
a sinceridade é saudade,
e desfaz-se o já feito.

Por aqui não floresce a dignidade,
nem o merecido valor humano;
cerceia-se a igualdade
num gesto amargo e profano.

O poder segue nas mãos
de poucos e desatinados,
enquanto muitos, irmãos,
vivem à margem, calados.

Contudo, aqui estou, arraigado,
talvez esperando o que não virá,
com raízes neste chão espalhadas,
sem nunca deixar de sonhar.

Sei que um dia a jornada se cumpre
e a campa enfim me acolherá;
mas partirei desta vida, por inteiro,
sem nunca deixar de te amar.

E, antes de ao teu solo me entregar
e nos grãos da terra adormecer,
quero, em teu colo, suspirar
para, em ti, eternamente viver.

  • Autor: Carlos (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 18 de abril de 2026 11:17
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 1


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