O café na segunda-feira de manhã sempre tinha um gosto mais amargo para a Freira. Ela olhava para a tela do computador, mas os olhos não focavam. O silêncio do escritório era interrompido apenas pelo som rítmico do teclado do Padre, seu melhor amigo e colega de bancada.
O Padre, que conhecia bem a Freira desde os tempos de faculdade, percebeu o padrão. O ombro caído, o suspiro pesado a cada cinco minutos e aquela expressão de quem carregava o mundo nas costas.
— Madre? — Padre chamou baixo, girando a cadeira. — Por que você está tão aborrecida hoje? Se for aquele relatório do financeiro, eu te ajudo.
Madre finalmente desviou o olhar do monitor. Seus olhos estavam levemente avermelhados, e o sorriso, que costumava aparecer fácil nas sextas, estava desaparecido.
— Não é o relatório, Padre. É assim toda segunda-feira, não percebeu?
Padre franziu o cenho, genuinamente preocupado.
— Mas o que acontece? Alguém te chateou no final de semana?
Madre soltou um riso seco, sem alegria, e balançou a cabeça negativamente.
— Esse é o ponto. Eu bebo na sexta para celebrar, continuo no sábado para não perder o ritmo e, no domingo à noite, quando o vazio da segunda-feira começa a bater, eu continuo bebendo para não sentir a ansiedade chegar.
Ela fez uma pausa, olhando para as próprias mãos.
— O resultado é esse que você está vendo. Meu corpo está aqui, mas minha mente está num buraco. Eu me sinto triste, irritada e sem energia. O problema não é o trabalho, não é o relatório e, definitivamente, não é você, amigo. O problema sou eu. Sou eu que não estou sabendo parar.
Padre ouviu em silêncio. Ele não deu um sermão, nem tentou minimizar a dor dela. Apenas estendeu a mão e tocou o ombro da amiga.
— Reconhecer isso já é o primeiro passo para a próxima segunda ser diferente, Madre. Que tal se no próximo domingo a gente trocar a garrafa por uma caminhada no parque? Eu busco você.
A Madre olhou para ele e, pela primeira vez naquele dia, um esboço de sorriso surgiu. O peso continuava ali, mas agora parecia um pouco mais leve para carregar. Muito obrigado, Padre, serei eternamente grata!
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Autor:
GINO (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 15 de abril de 2026 22:21
- Categoria: Conto
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