O que não nos matou
apenas nos marcou.
Uma nave leva o filósofo
— ele ainda está tentando.
Na passagem, o demônio
faz hora extra.
No bar, o blues é um homem
curvado sobre o rum.
O mar não ensina,
endurece o rosto.
A mulher inventa uma palavra
e o anel a captura.
O vinho é um clarão
sobre o abismo.
O Coletor de Sombras
entra como quem já esteve ali.
Os filhos imortais o reconhecem.
Os outros, não.
Cada dia é uma réplica
mal feita do último.
À mesa:
o alquimista, o olheiro,
o coletor, o rei da boca,
o gerente esquecido —
todos com a mesma fome.
O sem noção empurra a moto enferrujada
como quem empurra a própria sorte.
Nas praias, as aberrações
andam com o vento.
Alguém confunde os pólos
e chama a isso destino.
A vida oscila
entre a luz e o inferno,
entre o medo e o prazer
de estar aqui.
Os sérios aplaudem o palhaço.
O bêbado declama na porta
um poema que ninguém pediu.
De madrugada,
o Coletor nota a queimadura.
As histórias pesam no saco.
Ele sai para a estrada
fora de época.
O que não nos matou
ficou debaixo da pele.
Saímos da sombra,
mas a sombra saiu conosco.
O cascos sobre as dunas
são o que resta do fulgor.
As ilusões sobre as nuvens
ainda não pararam.
Sábado
de Ayalah Verônica Berg
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Autor:
Ayalah Berg (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 11 de abril de 2026 11:01
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 4

Offline)
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