um quase poema

Miguel Júnior

existo

apesar do olhar

dos espinhos

 

penso

apesar do movimento

dos mosaicos

 

o inferno

habita logo ali

na chama do corisco

 

a realidade

brota nos grotões

das entranhas

 

na estante

há volumes

de máscaras

 

não quero

sol ou chuva

busco a minha caverna

 

versifico

apesar do quase

poema

  • Autor: Miguel Júnior (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 11 de abril de 2026 10:51
  • Comentário do autor sobre o poema: O poema é composto por sete estrofes curtas (títulos e dísticos), utilizando versos livres e brancos (sem rimas). Essa estrutura fragmentada reflete o tema do \\\"quase\\\": a recusa de uma forma acadêmica rígida em favor de uma expressão direta e existencial. A pontuação é inexistente, sugerindo um fluxo de consciência que não se interrompe por normas externas. Análise Estrófica e Simbolismo. A Resistência (1ª e 2ª estrofes): O \\\"olhar dos espinhos\\\" personifica uma alteridade que agride ou limita. Na segunda estrofe, a substituição de \\\"pedra\\\" por \\\"mosaicos\\\" é significativa: o mosaico sugere algo multifacetado, caótico ou construído por pedaços alheios. Pensar \\\"apesar do movimento dos mosaicos\\\" é manter a coerência intelectual diante de uma realidade fragmentada e inconstante. O Espaço do Mal e da Verdade (3ª e 4ª estrofes): \\\"O inferno / habita logo ali\\\" espacializa a angústia existencial (remetendo ao existencialismo sartreano). A \\\"chama do corisco\\\" simboliza a efemeridade e o perigo do que é externo e repentino. Em contrapartida, a realidade não é algo que se busca fora, mas algo que \\\"brota nos grotões das entranhas\\\", reforçando a ideia de que a verdade é subjetiva e visceral. A Crítica à Identidade Social (5ª estrofe): \\\"volumes / de máscaras\\\" sugere uma biblioteca de falsidades. As máscaras não são apenas usadas, são catalogadas e acumuladas (\\\"volumes\\\"), indicando que a sociedade é um depósito de papéis sociais prontos para serem vestidos. O Retorno ao Eu (6ª estrofe): A negação do \\\"sol ou chuva\\\" é a rejeição das dualidades externas (alegria/tristeza, sucesso/fracasso). A \\\"caverna\\\" aqui é um símbolo positivo de introspecção e refúgio do Self, onde o eu lírico se protege da \\\"coisificação\\\" do mundo. A Metalinguagem: O \\\"Quase\\\". O fechamento (\\\"versifico / apesar do quase / poema\\\") é a chave da obra. O autor reconhece que a linguagem é sempre insuficiente para traduzir a existência plenamente. Chamar a obra de \\\"quase poema\\\" é um ato de humildade filosófica: a vida e a arte estão sempre \\\"em potência\\\", nunca terminadas. Conclusão Temática. O poema é um manifesto de individuação. Ele descreve o trajeto de um sujeito que: a) Reconhece a agressividade do mundo (espinhos, corisco). b) Identifica a falsidade das interações (máscaras). c) Escolhe o recolhimento (caverna) para preservar a própria realidade.\r\nA obra se posiciona como um ato de resistência: a escrita (versificar) é o que permite ao sujeito existir mesmo quando tudo ao redor tenta fragmentá-lo ou rotulá-lo.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3
  • Em coleções: Poemas.


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