Quando a Respiração Encurta

Gilberto Lima

Quando a respiração encurta

e o silêncio entre nós

ganha a textura lenta do veludo,

é ali que te sinto mais próxima do mistério,

mais inteira dentro de mim,

como se a noite, por um instante,

tivesse escolhido teu nome

para dizer tudo o que não ousa dizer em voz alta.

Meu olhar repousa em ti sem pressa,

como quem percorre um poema raro

à meia-luz,

sabendo que certos versos

não se entregam de imediato.

Ele acompanha teu gesto,

a elegância quieta do teu corpo,

a maneira como tua presença

altera o ar à tua volta

e transforma o simples

em promessa.

Quero chegar perto

com a lentidão de quem compreende

que o verdadeiro fascínio

não está no assalto,

mas na espera.

Na distância mínima entre um impulso e outro.

No instante em que a pele pressente,

antes mesmo do toque,

que alguma coisa mudou para sempre.

Imagino meus dedos encontrando os teus

como quem acende uma luz discreta.

Depois, a curva do teu silêncio,

a linha serena da tua nuca,

o caminho invisível

onde a delicadeza deixa de ser gesto

e se torna linguagem.

Quero que cada aproximação

tenha o peso leve das coisas inevitáveis.

Desejo estar perto do teu rosto

apenas o bastante

para sentir tua respiração mudar.

Para perceber o momento exato

em que teus olhos abandonam a defesa

e passam a dizer aquilo

que tua boca ainda escolhe calar.

Há encontros que começam assim:

não no toque,

mas na vertigem quase imperceptível

de dois mundos se reconhecendo.

O que sinto por ti

não tem violência,

tem profundidade.

Move-se em silêncio,

como certas forças raras

que não precisam de alarde

para mudar tudo de lugar.

Vem.

Deixa que eu te ame

com essa calma acesa,

com essa atenção inteira,

com esse cuidado que beira a reverência.

Deixa que eu me aproxime

como quem não invade,

mas merece ficar.

Como quem entende

que há mulheres cuja beleza

não se descreve:

apenas desarma.

Porque tu não despertas apenas desejo.

Despertas presença.

Despertas silêncio.

Despertas essa vontade funda

de permanecer no teu campo,

na tua luz madura,

na elegância quase cruel

com que tua existência

desorganiza meu mundo

e, ao mesmo tempo,

lhe devolve sentido.

E é por isso

que diante de ti

eu não me torno menos contido —

torno-me mais verdadeiro.

Mais atento.

Mais inteiro.

Como se tudo em mim soubesse, enfim,

que certas mulheres

não precisam pedir passagem:

elas simplesmente acontecem.

  • Autor: Gilberto Lima (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 10 de abril de 2026 22:01
  • Comentário do autor sobre o poema: Este poema nasce do desejo de falar da sedução com maturidade, delicadeza e presença.Minha intenção não foi descrever o excesso, mas sugerir o instante em que o desejo se torna linguagem.Interessa-me mais a tensão do que o gesto, mais o silêncio do que o ruído. Há uma beleza rara naquilo que se insinua sem se explicar por inteiro.Escrevi pensando na mulher que reconhece a força do olhar, da pausa e da atmosfera. Na mulher para quem o encanto começa antes do toque e permanece depois dele. Quis preservar a elegância do mistério, sem abrir mão da intensidade emocional. Porque o verdadeiro erotismo, para mim, está menos na exposição e mais na presença. Menos no que se mostra, mais no que faz o coração e a memória despertarem juntos. Este poema é, acima de tudo, um tributo à beleza madura do desejo quando ele sabe esperar.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 1


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.