Andar sem destino, apenas instinto
catando sombras e latas;
colhendo sentidos, todos, até o da fome
ouvindo os murmúrios dos passantes.
O banco de concreto, frio ou quente,
abriga o corpo, sem preferências;
a fadiga faz dos braços travesseiro.
Ser camuflado, quase sempre,
paisagem que, quando se revela,
vai da náusea à piedade:
um espelho empoeirado.
O vagante, como se proclama,
diz ter fugido do cálculo,
de qualquer engenharia.
O sorriso vem fácil
sem qualquer embriaguez.
Lúcido de sua condição,
diz não haver culpados.
De mãos anônimas recebe
e agradece o pão, a sopa;
a fome se vai em silêncio.
Segue sem mal algum,
em suas vestes não tem bolsos;
apenas um pequeno bilhete no boné,
de saudade e incompreensão...
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Autor:
Francisco Queiroz (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 9 de abril de 2026 08:34
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 6
- Em coleções: Urbano.

Offline)
Comentários1
Olá poeta! Boa noite! O poema descreve o morador de rua como um ser camuflado, uma paisagem que só é notada quando causa náusea ou piedade. A metáfora do espelho empoeirado é central: ele reflete o que a sociedade não quer ver em si mesma — a fragilidade e o abandono. O personagem afirma ter fugido do cálculo e da engenharia. Isso sugere uma escolha, ou uma aceitação, de viver fora das métricas de produtividade e lógica da sociedade moderna. Ele não é apenas alguém sem casa, é alguém fora do mapa. O texto destaca o sorriso fácil e a lucidez. Ao dizer que não há culpados, o vagante assume uma postura quase estoica, aceitando a realidade sem amargura ou embriaguez, o que confere a ele uma superioridade moral e intelectual. O detalhe final é o mais tocante: em suas vestes não tem bolsos. Se ele não tem bolsos, ele não tem nada a carregar ou esconder. No entanto, ele carrega algo imaterial: um pequeno bilhete no boné. Esse bilhete de saudade e incompreensão humaniza o personagem, revelando que, embora tenha rompido com a engenharia social, ele ainda está ligado ao mundo pelos fios invisíveis do sentimento. É uma obra que transforma o andar sem destino em um ato de resistência silenciosa, onde a fome e o cansaço são aceitos com uma calma perturbadora para quem observa de fora. Parabéns pelo poema! Abraço fraterno.
Gratidão pelo comentário, um abraço fraterno!
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