Os passantes e o vagante

Francisco Queiroz

Andar sem destino, apenas instinto

catando sombras e latas;

colhendo sentidos, todos, até o da fome

ouvindo os murmúrios dos passantes.

 

O banco de concreto, frio ou quente,

abriga o corpo, sem preferências;

a fadiga faz dos braços travesseiro.

 

Ser camuflado, quase sempre,

paisagem que, quando se revela,

vai da náusea à piedade:

um espelho empoeirado.

 

O vagante, como se proclama,

diz ter fugido do cálculo,

de qualquer engenharia.

 

O sorriso vem fácil

sem qualquer embriaguez.

Lúcido de sua condição,

diz não haver culpados.

 

De mãos anônimas recebe

e agradece o pão, a sopa;

a fome se vai em silêncio.

 

Segue sem mal algum,

em suas vestes não tem bolsos;

apenas um pequeno bilhete no boné,

de saudade e incompreensão...

  • Autor: Francisco Queiroz (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 9 de abril de 2026 08:34
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 6
  • Em coleções: Urbano.
Comentários +

Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Olá poeta! Boa noite! O poema descreve o morador de rua como um ser camuflado, uma paisagem que só é notada quando causa náusea ou piedade. A metáfora do espelho empoeirado é central: ele reflete o que a sociedade não quer ver em si mesma — a fragilidade e o abandono. O personagem afirma ter fugido do cálculo e da engenharia. Isso sugere uma escolha, ou uma aceitação, de viver fora das métricas de produtividade e lógica da sociedade moderna. Ele não é apenas alguém sem casa, é alguém fora do mapa. O texto destaca o sorriso fácil e a lucidez. Ao dizer que não há culpados, o vagante assume uma postura quase estoica, aceitando a realidade sem amargura ou embriaguez, o que confere a ele uma superioridade moral e intelectual. O detalhe final é o mais tocante: em suas vestes não tem bolsos. Se ele não tem bolsos, ele não tem nada a carregar ou esconder. No entanto, ele carrega algo imaterial: um pequeno bilhete no boné. Esse bilhete de saudade e incompreensão humaniza o personagem, revelando que, embora tenha rompido com a engenharia social, ele ainda está ligado ao mundo pelos fios invisíveis do sentimento. É uma obra que transforma o andar sem destino em um ato de resistência silenciosa, onde a fome e o cansaço são aceitos com uma calma perturbadora para quem observa de fora. Parabéns pelo poema! Abraço fraterno.

    • Francisco Queiroz

      Gratidão pelo comentário, um abraço fraterno!



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