Corpo

Pedro Brecher

Hoje eu coloco a minha mão sobre a sua e consigo sentir os pequenos choques como na primeira vez em que elas se encostaram

 

Deslizo os dedos pela correntinha em seu pescoço com a foto do nosso filho e sinto o gelo do metal que passa por eles.

 

O cheiro de baunilha, daquele seu perfume favorito, vem do seu busto e entra nas minhas narinas como uma onda quebrando na areia.

 

Analiso cada ângulo da curvatura do seu nariz como um matemático prestes a decifrar um cálculo.

 

Encosto os meus lábios nos seus que estão secos e rachados e subo para observar seus olhos, 

mas 

eles estão fechados…

 

Com isso o meu corpo percebe que a sua mão está gelada e a correntinha em seu pescoço foi ajustada perfeitamente para não deslizar na posição que seu corpo se encontra.

 

O mesmo corpo que está rodeado por coroas de flores e velas acesas. 

O mesmo corpo que está cercado de familiares e amigos chorando.

O mesmo corpo que está imóvel, rígido e gelado.

 

O mesmo corpo que eu amei pela maior parte da minha vida e passei dias observando cada detalhe, agora, está sendo lacrado em uma caixa de madeira e enterrado para sempre em uma distância da superfície que me proíbe de contemplá-lo e me condena a relembrá-lo todos os dias até o dia em que o meu também será devorado pela terra e poderei mais uma vez te apreciar, vendo a profundeza dos seus olhos verdes,  sentindo a leveza da sua mão quente enquanto beijo seu lábio macio e o cheiro de baunilha se prende ao meu corpo.


Não vejo a hora de ter o seu corpo de volta ao meu.

  • Autor: Pedro Brecher (Offline Offline)
  • Publicado: 7 de abril de 2026 21:26
  • Comentário do autor sobre o poema: Para todos aqueles que perderem alguém para a morte e principalmente que perderem alguém, mas a pessoa continua respirando.
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 2


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