Umbral de August — 1889
No penhasco onde o vento não pede permissão,
August permaneceu entre dois mundos —
o da carne que ainda lembrava
e o da alma que já começava a partir.
O mar abaixo não era apenas água,
era um espelho profundo
onde o amor sangrava em silêncio.
Rosa Marcella…
Teu nome atravessava o ar
como um sino distante,
como a última coisa que ainda fazia sentido
antes do vazio.
Há uma dor que não grita —
ela escorre.
Escorre pela alma
como sangue que ninguém vê.
E ali, naquele limite entre o céu e o abismo,
August compreendeu:
amar é também morrer um pouco antes do fim.
O adeus não veio em palavras.
Veio em suspiro.
Um sopro leve, quase invisível,
como se o próprio espírito hesitasse
em abandonar aquilo que ainda amava.
E quando o corpo cedeu ao destino,
não houve queda —
houve dissolução.
Como se ele se tornasse neblina,
como se o mar o recebesse
não como morte…
mas como retorno.
As águas lavaram não o corpo,
mas a dor.
E por um instante eterno,
tudo ficou em silêncio.
Exceto…
Ao longe, uma igreja.
Os sinos tocavam.
Não por celebração,
mas por ausência.
Não havia noivos.
Não havia promessas.
Apenas o eco de um amor
que não chegou a viver o seu futuro.
Rosa, em algum lugar entre o visível e o esquecido,
sentiu.
Sentiu o romper invisível
de algo que nunca deveria ter sido separado.
E chorou —
não com lágrimas humanas,
mas com o peso de uma eternidade vazia.
Porque há amores que não terminam na morte.
Eles atravessam.
Ferem.
Persistem.
E continuam sangrando na alma
mesmo quando tudo o resto
já se calou.
No umbral entre mundos,
August ainda chama.
E Rosa…
ainda escuta.
O Último Beijo de August — 1889
Havia um silêncio diferente naquela tarde,
como se o mundo soubesse…
e decidisse não interromper.
August estava ali,
com o coração pesado de eternidade
e os olhos cheios de um amor
que já não cabia no tempo.
Rosa Marcella tremia em frente a ele —
não de frio,
mas de pressentimento.
Há despedidas que chegam antes das palavras.
— Fica… — ela sussurrou,
mas a voz não tinha força para mudar o destino.
August não respondeu de imediato.
Apenas a olhou como quem grava
cada detalhe na alma.
O vento soprou entre eles,
levando embora o que ainda restava de coragem.
E então…
ele se aproximou.
Não com pressa,
não com desespero —
mas com a delicadeza de quem sabe
que aquele instante seria o último.
Seus dedos tocaram o rosto de Rosa
como se tocassem algo sagrado.
E quando seus lábios se encontraram…
o mundo parou.
Não havia mais penhasco,
nem tempo,
nem medo.
Só aquele beijo.
Um beijo que carregava tudo —
o que foram,
o que sonharam,
e tudo o que nunca seriam.
Havia lágrimas misturadas,
havia saudade antes mesmo da perda,
havia amor demais para um único adeus.
E naquele encontro de almas,
August se partiu por dentro.
Porque ele sabia.
Sabia que aquele beijo
não era apenas despedida —
era permanência.
Quando se afastou,
Rosa ainda o segurou pelo tempo de um suspiro.
Mas o destino não espera.
E há caminhos
que se percorrem sozinhos.
August deu um passo para trás.
Depois outro.
E mesmo distante,
seus olhos ainda estavam nela
como quem nunca aprenderia a partir.
— Em outra vida… — ele disse baixo.
Mas nem a esperança conseguiu terminar a frase.
O vento levou.
O momento quebrou.
E o último beijo ficou suspenso no ar,
como uma promessa que o tempo não cumpriu.
Rosa caiu em silêncio.
E August…
levou consigo aquele beijo
para além do que é visível,
para além do que pode ser tocado.
Porque há beijos que não acabam.
Eles ficam presos entre dois mundos —
ardendo,
eternos,
impossíveis.
E aquele…
foi o último.
Mas nunca deixou de existir.
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Autor:
Jullyne and Jully (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 7 de abril de 2026 18:34
- Categoria: Espiritual
- Visualizações: 2
- Em coleções: POESIAS D\'Mundo.

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