O LEÃO e o cardápio

Francisco Queiroz

sentei-me

na tela uma missão

prestar contas

ao soberano Leão

 

me distraio com as pontas

em vez dos números

versos

 

o rugido me alerta

volte

para sua obrigação

 

disperso

 

abro

tabelas

extratos

comprovantes

 

doravante

já me perdi

rimas

estrofes

títulos

 

ele me espreita

na surdina

 

que tolice

prestar conta

de uma ninharia

 

vou voltar à empreita

já dá pra sentir

a sua malha fina e fria

 

é assim que ele caça

de noite ou de dia

nunca lhe falta apetite

 

e para me devorar

no cardápio

suas receitas preferidas

 

o aperitivo:

Cadastro/Pessoa/Física

 

o principal:

pessoa selada no xadrez

 

a sobremesa:

lascas de penhora

 

e cá estou a versar

sobre essa minha demora

e olha que não é brincadeira

se eu não me entregar

ele me devora

  • Autor: Francisco Queiroz (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 7 de abril de 2026 10:18
  • Comentário do autor sobre o poema: Realidade de muitos brasileiros: aqui, praticamente todos têm que declarar, seja pobre, médio ou rico. Os grandões de verdade sabem se esconder, mesmo carregando muita sonegação nas costas; os pequenos, se errarem uma vírgula no plano de saúde, são pegos. Tempos memoráveis — de certo ainda terei saudades deles. Tudo muda tão rápido. Um abraço a todos...
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 9
  • Usuários favoritos deste poema: Arthur Santos
  • Em coleções: Urbano.
Comentários +

Comentários2

  • Arthur Santos

    Grandes verdades. Belo poema.

  • Vilma Oliveira

    Olá poeta! Boa noite! O poema ilustra o duelo entre o hemisfério esquerdo do cérebro (tabelas, extratos, números) e o direito (rimas, estrofes, versos). A missão de prestar contas é constantemente sabotada pela pulsão criativa. O eu lírico se perde nos títulos enquanto deveria se encontrar nos comprovantes. A parte mais criativa é o cardápio do Leão. Você constrói uma progressão fatalista e cômica: Entrada: O CPF (a identidade mínima). Prato Principal: O xadrez (a prisão/malha fina). Sobremesa: A penhora (o confisco do que restou). A expressão malha fina e fria é um ótimo jogo de palavras. Ao mesmo tempo que remete ao sistema de fiscalização, traz a sensação tátil da rede de um caçador ou da pele de um predador, reforçando o medo da mordida financeira. O poema começa calmo (sentei-me), passa pela distração e termina em um tom de urgência (se eu não me entregar / ele me devora). O ritmo curto dos versos mimetiza o estado de dispersão e ansiedade de quem está atrasado com o fisco. Parabéns pelo poema! Meu abraço fraterno.

    • Francisco Queiroz

      Obrigado pela generosidade. Boa noite, um abraço fraterno!



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