147 - O VELHO ELEVADOR

Arthur Santos

O VELHO ELEVADOR

é um velho elevador

que funciona e não funciona,

pára, arranca, arranca, pára,

sobe, desce, desce, sobe, anda numa fona.

vem um técnico, vai um técnico,

tira parafuso, mete parafuso,

diz que o elevador tem muito uso,

mete tudo, tira tudo, substitui tudo,

experimenta, liga, desliga

mas o mal é o mal nacional,

resolve-se, não se resolve,

e amanhã está tudo igual,

avariado como dantes.

é um velho elevador,

anda para baixo, anda para cima,

funciona dois dias e depois descansa,

parece afectado pela mudança de clima.

vem um técnico, vai um técnico,

tira óleo, mete óleo,

raspa aqui, raspa acolá,

lubrifica tudo e já está,

mexe em tudo, verifica tudo,

tudo está nos conformes,

lá se vão os homens dos uniformes.

no dia seguinte depois do sobe e desce,

o velho elevador pára, emudece!

tem paralelo com a roda da vida.

os alcatruzes da vida,

sobem, descem, descem, sobem,

numa paz ilusoriamente adquirida.

um dia, tal como o velho elevador,

inesperadamente um alcatruz avaria

e lá se vai toda a alegria!

Comentários +

Comentários5

  • Francisco Queiroz

    É sempre entrar em um elevador de Alegria que só sobe ler os teus versos, gratidão, Nobre Poeta!

    • Arthur Santos

      Grato pelo comentário Caro poeta Francisco. Abraço.

    • Vilma Oliveira

      Olá poeta! Boa noite! O elevador não é apenas uma máquina velha; ele é um símbolo de algo maior. Quando você escreve que o problema é o mal nacional, você toca na ideia da desenrasca ou do conserto superficial Tira parafuso, mete parafuso, resolve-se, não se resolve. Há uma crítica clara à falta de soluções definitivas e à ineficiência burocrática ou técnica que faz com que, amanhã, esteja tudo igual. O elevador ganha características humanas e biológicas: Ele descansa, é afetado pela mudança de clima e, finalmente, emudece. Essa personificação prepara o leitor para o salto metafórico do final do poema: o elevador somos nós. A introdução da palavra alcatruzes (os baldes de uma nora ou roda de água) é brilhante. Ela muda a imagem de um elevador moderno para algo ancestral e cíclico: A vida é vista como um mecanismo de repetição (sobem, descem) que depende de que todas as peças funcionem. O poema sugere que o equilíbrio da nossa existência é precário. Achamos que estamos bem, mas, como o elevador, somos feitos de peças que se desgastam. Parabéns pelo poema! Meu abraço fraterno.

      • Arthur Santos

        Amiga poetisa Vilma, soberbo comentário. FABULOSO! Muito obrigado pela brilhante interpretação do meu pobre poema! Abraço fraterno.

      • Noétrico

        A condição humana, da repetição, da precariedade e da ilusão de controle. Um poema maduro, bem construído e com uma voz própria. Um arraso com sempre Caro Arthur.

        • Arthur Santos

          Caro amigo poeta agradeço o seu simpático comentário Grande abraço aqui de Portugal.

        • LEIDE FREITAS

          É desse jeito.
          Boa Noite!

          • Arthur Santos

            Grato pelo comentário poetisa Leide.

          • G. Mirabeau

            Fantástica metáfora. Assim que me sinto.

            • Arthur Santos

              Muito grato pelo seu comentário amigo poeta Mirabeau.



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