FORTALEZA DA SAUDADE

Francisco Queiroz

O dia nublado.

No celeiro azul,

várias nuvens modeladas

na imaginação.

 

Um leão cinza voava

ao lado do dragão albino,

rumo às cordilheiras laranja,

onde o sol amarelo ia cochilar.

 

O vento soprava

a cena narrada,

que, devagarinho,

ia se dissolvendo

em gotas

de saudade.

 

Saudades da barra da saia

que eu puxava enquanto apontava para o céu.

Saudades do banco de trás do carro,

em que minha testa se apoiava no vidro.

 

Aquele vidro era minha TV,

eu fazia meus próprios filmes,

onde, nas nuvens, havia uma fortaleza

que era a morada de Deus e seus serafins.

 

Bons momentos no quintal de terra batida,

deitado na tampa da cisterna na casa de vovó,

a galinha Filó como companhia, serena,

em contraste,

a canela era mordida com carinho

pelo sapeca Maradona, querendo brincar.

 

É,

o céu nunca se repetiu para mim.

 

Agora, tudo isso

só existe na criança

que ainda caminha

olhando para cima.

 

Viva em mim,

em um lugarzinho

em que jamais

serei adulto.

 

Passados os anos,

tudo isso me encanta,

mesmo que a barra da saia eu não alcance mais,

que a Filó, o Maradona e o carro do papai

já tenham partido,

que a cisterna, já seca, tenha sido lacrada

e que o quintal agora abrigue kitnets.

 

O céu nunca se repetiu para mim.

 

Ah, essas lembranças de criança

só se vão quando eu partir,

para as nuvens quem sabe.



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