O dia nublado.
No celeiro azul,
várias nuvens modeladas
na imaginação.
Um leão cinza voava
ao lado do dragão albino,
rumo às cordilheiras laranja,
onde o sol amarelo ia cochilar.
O vento soprava
a cena narrada,
que, devagarinho,
ia se dissolvendo
em gotas
de saudade.
Saudades da barra da saia
que eu puxava enquanto apontava para o céu.
Saudades do banco de trás do carro,
em que minha testa se apoiava no vidro.
Aquele vidro era minha TV,
eu fazia meus próprios filmes,
onde, nas nuvens, havia uma fortaleza
que era a morada de Deus e seus serafins.
Bons momentos no quintal de terra batida,
deitado na tampa da cisterna na casa de vovó,
a galinha Filó como companhia, serena,
em contraste,
a canela era mordida com carinho
pelo sapeca Maradona, querendo brincar.
É,
o céu nunca se repetiu para mim.
Agora, tudo isso
só existe na criança
que ainda caminha
olhando para cima.
Viva em mim,
em um lugarzinho
em que jamais
serei adulto.
Passados os anos,
tudo isso me encanta,
mesmo que a barra da saia eu não alcance mais,
que a Filó, o Maradona e o carro do papai
já tenham partido,
que a cisterna, já seca, tenha sido lacrada
e que o quintal agora abrigue kitnets.
O céu nunca se repetiu para mim.
Ah, essas lembranças de criança
só se vão quando eu partir,
para as nuvens quem sabe.
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Autor:
Francisco Queiroz (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 5 de abril de 2026 10:49
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 4
- Em coleções: Naruteza, Silêncios, Urbano.

Offline)
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