Ruínas De Um Quase

Lavinia

Não foi a ausência de compatibilidade que nos dilacerou foi a lucidez cruel de reconhecer que éramos, em essência, um encontro raro, mas não recíproco. Havia em nós a matéria-prima do extraordinário, a promessa silenciosa de algo vasto, quase eterno. Mas promessas, quando sustentadas por apenas um coração, tornam-se ruínas antes mesmo de se concretizarem.

 

Há dores que não nascem da falta de amor, mas do excesso dele entregue ao lugar errado. Eu não amei pouco amei além. Entreguei presença onde havia ausência, constância onde habitava a dúvida, profundidade a quem se contentava com a superfície. E no fim, o que restou foi o peso de ter sido inteira em um espaço que nunca me coube por completo.

 

Em meio a oito bilhões de pessoas, o meu coração escolheu bater por aquele que jamais encontrou ritmo para bater por mim.

 

Existe uma exaustão silenciosa em tentar convencer alguém do valor de algo que deveria ser natural. O amor não deveria exigir tradução, insistência ou explicação. Ele se manifesta, se afirma, se sustenta. Mas eu permaneci não por fraqueza, mas por esperança. E, ainda assim, esperança sem reciprocidade é apenas uma forma lenta de autodestruição.

 

A verdade, por mais dura que seja, é libertadora: nem todo sentimento é destino, nem toda conexão é permanência. Algumas histórias nascem não para florescer, mas para ensinar e às vezes, a lição mais dolorosa é aprender a ir embora mesmo quando ainda se deseja ficar.

 

Não foi falta de luta. Foi, talvez, excesso dela. Lutei sozinha por algo que exigia dois. E nenhum esforço, por mais intenso que seja, tem o poder de substituir a vontade de quem escolhe não permanecer.

 

Hoje, compreendo que partir também é um ato de coragem. Que encerrar ciclos não é fracasso, mas respeito próprio. E que o amor, quando verdadeiro, não se apoia em incertezas, nem sobrevive de migalhas emocionais.

 

Eu fui abrigo em dias de tempestade e ele foi ausência quando o céu desabou sobre mim. E isso diz tudo.

 

Que a vida, então, escreva seus finais necessários. Que leve consigo tudo aquilo que não teve força para ficar. E que, em algum reencontro futuro com o destino, o meu coração finalmente encontre alguém que não apenas o escolha… mas que permaneça.

E, ainda assim, há uma beleza silenciosa em quem teve coragem de sentir tudo com intensidade. Porque amar, mesmo quando não se é escolhido, não diminui quem ama revela. Revela profundidade, revela entrega, revela uma grandeza que não se negocia. O erro nunca esteve em ter dado demais, mas em ter permanecido onde o outro oferecia de menos. Há dignidade em quem se doa por inteiro, mas há ainda mais grandeza em quem aprende, com o tempo, a se retirar quando percebe que está só.

 

O tempo, esse juiz implacável, coloca cada lembrança em seu devido lugar. Aquilo que hoje dói como ausência, amanhã será apenas memória e, depois, aprendizado. Porque o que não foi recíproco não era lar, era passagem. E tudo aquilo que é passageiro, por mais intenso que pareça, não foi feito para ser destino.

 

E que isso nunca mais seja confundido: amor não é insistência solitária, não é construção unilateral, não é resistência ao óbvio. Amor é encontro. É escolha mútua. É permanência sem esforço forçado. Qualquer coisa fora disso é apenas apego disfarçado de esperança.

 

Como conselho e talvez como um lembrete que a vida faz questão de repetir até ser aprendido nunca permaneça onde você precisa implorar para ser visto, sentido ou escolhido. A ausência de reciprocidade não é um desafio a ser vencido, é um sinal claro a ser respeitado. Tenha a firmeza de se retirar de tudo aquilo que exige que você diminua quem é para caber. A maturidade emocional não está em suportar mais, mas em discernir melhor. E, sobretudo, compreenda: quem não reconhece o seu valor no presente não merece acesso ao seu futuro. Preservar a si mesma não é frieza é sabedoria.

 

Porque, no fim, não se trata de encontrar alguém para amar, mas de jamais se perder de si mesma no processo.

 

— Lavínia Dias

  • Autor: Lavinia (Offline Offline)
  • Publicado: 4 de abril de 2026 18:11
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  • Categoria: Amor
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