A Avenida do Meu Nome

Gilberto Lima

Há uma sensação que não sei explicar sem trair um pouco do mistério.

Ela chega mansa, quase solene, como se o tempo abrisse uma fresta invisível dentro de mim. Não é exatamente saudade. Não é exatamente memória. É outra coisa. Uma espécie de claridade antiga, um arrepio calmo, uma familiaridade sem prova. Como se alguma parte de mim, enterrada sob séculos de silêncio, reconhecesse de repente um chão, uma curva, uma luz, um nome.

E então eu passo pela avenida que leva o meu nome.

E nesse instante o mundo hesita.

Os carros continuam, as pessoas seguem, o vento toca as árvores com a mesma indiferença elegante de sempre, mas dentro de mim alguma engrenagem cósmica muda de posição. Por um segundo — ou por uma eternidade disfarçada de segundo — eu sinto que estive ali antes. Não assim. Não com esta roupa, não com este rosto, não com esta idade, nem com esta identidade cuidadosamente montada para esta travessia presente. Mas estive.

Eu conheço essa avenida de um lugar que não cabe nos arquivos da mente.

Talvez eu a tenha cruzado quando usava outras vestes, outra pele, outro nome, outro corpo para abrigar a mesma centelha. Talvez eu tenha passado por ali com os olhos de um homem que já fui, ou de uma consciência que ainda sou, apenas distribuída em tempos diferentes. Há momentos em que a realidade parece menos sólida do que nos ensinaram, e mais parecida com um grande espelho em movimento, refletindo versões simultâneas daquilo que chamamos de eu.

E é aí que o mistério me atravessa com beleza.

Porque não me causa medo. Não. O que sinto é um assombro sereno, quase sagrado. Uma alegria estranha, dessas que não explodem — resplandecem. Como se o universo, por delicadeza ou ironia fina, me permitisse tocar a borda de um segredo antigo sem entregá-lo por completo. Como se dissesse: “Você não esqueceu tudo. Só esqueceu o bastante para continuar.”

Eu caminho, mas algo em mim para.

Olho a avenida, e ela já não parece apenas concreto, placas, esquinas e fluxo. Ela pulsa. Ela observa de volta. E eu tenho a impressão de que meu nome nela não é homenagem, coincidência ou mero ornamento urbano. É chamado. É eco. É assinatura deixada por uma versão de mim que soube, antes de mim, que um dia eu retornaria por esse caminho para sentir exatamente isso: a vertigem delicada de quase lembrar.

Quase lembrar.

Que expressão cruel e sublime.

Porque há um abismo inteiro entre não saber e quase saber. E é nesse abismo que a alma trabalha em silêncio. A mente quer fatos. Datas. Provas. Lógica. A alma, não. A alma trabalha com vibração, com lampejo, com símbolos, com aquela inteligência mais antiga que pensa sem palavras e reconhece sem precisar demonstrar. Talvez seja isso que tantos chamam de intuição. Talvez seja isso que os mais atentos percebem ao envelhecer: a consciência não fica menor com o tempo — ela fica mais funda.

Depois de certa idade, a gente começa a suspeitar que viver não é apenas avançar.

É também reencontrar.

Reencontrar ideias que nos visitaram antes do nascimento desta biografia. Reencontrar pessoas que parecem chegar atrasadas, mas na verdade apenas retornam. Reencontrar lugares que nos olham com intimidade sem nunca terem nos sido apresentados. Reencontrar em plena luz do dia aquilo que a razão chamaria de absurdo, mas o espírito reconhece como evidência silenciosa.

Eu sigo pela avenida com a sensação de estar atravessando não uma cidade, mas uma dobra do real.

Como se o espaço tivesse memória.
Como se o nome tivesse magnetismo.
Como se o tempo, por alguns segundos, tivesse perdido a disciplina.

E nesse intervalo indomável, eu quase vejo.

Não com os olhos, mas com aquela visão interior que acende quando o mundo externo já não basta. Quase vejo meus passos antigos sobrepostos aos de agora. Quase sinto o peso de outras roupas, a respiração de outro peito, a textura de uma época que não sei nomear. Quase escuto vozes ao fundo, não como assombração, mas como continuidade. Não me ameaçam. Me reconhecem.

E eu também as reconheço.

Ou quase.

Talvez a vida seja isso em sua camada mais secreta: uma longa recordação fragmentada de algo imenso demais para caber inteiro em uma só existência. Talvez sejamos viajantes de nós mesmos, atravessando séculos para amadurecer um único brilho essencial. Talvez cada encontro profundo, cada lugar inexplicavelmente familiar, cada emoção sem causa aparente seja uma rachadura luminosa por onde a eternidade sussurra: “Você já esteve aqui. Continue.”

Há uma inteligência no universo que não grita.

Ela sugere.
Insinua.
Acende.
Convida.

E quando passo pela avenida que leva o meu nome, sinto que fui convidado a lembrar não de um fato, mas de uma grandeza. Não de uma cena específica, mas de uma continuidade. Não de um personagem antigo, mas da consciência que atravessa todos eles. O nome na placa é apenas superfície. O verdadeiro chamado vem de baixo, de longe, de dentro, de antes.

Antes de mim como me conheço.

Por isso essa sensação é estranha e agradável ao mesmo tempo. Porque ela desmonta sem ferir. Ela me tira do piloto automático e me devolve ao mistério. Ela me recorda que talvez eu seja maior do que minha memória permite, mais antigo do que meu documento registra, mais vasto do que meu reflexo revela.

E por um momento — apenas por um momento — eu quase consigo lembrar.

Quase.

Mas talvez o quase seja a própria beleza.

Porque ele mantém viva a busca.
Mantém acesa a chama.
Mantém o espírito em movimento.

Não me foi dado recordar tudo. Foi-me dado sentir o suficiente para nunca mais olhar o mundo com a mesma distração.

Agora sei que existem avenidas que não atravessamos: elas nos despertam.

E desde esse dia, quando passo por aquela que leva o meu nome, já não caminho como quem apenas vai. Caminho como quem retorna. Como quem escuta uma música vinda de muito longe. Como quem sabe, no centro silencioso do ser, que a vida visível é só a superfície de uma narrativa muito maior.

Eu sigo.

Mas sigo diferente.

Com mais reverência pelo invisível.
Mais escuta diante do inexplicável.
Mais coragem para aceitar que nem toda verdade precisa ser provada para ser sentida.
E mais humildade para reconhecer que talvez eu seja, ao mesmo tempo, o viajante, a estrada, o nome e a lembrança.

  • Autor: Gilberto Lima (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 3 de abril de 2026 23:07
  • Comentário do autor sobre o poema: A semente deste texto nasceu no início dos anos 90, quando senti pela primeira vez essa estranha e agradável impressão de reconhecer algo que eu não sabia explicar. Na época, faltavam-me palavras para traduzir a experiência, e por isso guardei a sensação em silêncio, como quem protege um pequeno mistério à espera do tempo certo para florescer.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 4


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