Conto: A Noite de Sexta-feira da Paixão

Sinvaldo de Souza Gino

A Noite de Sexta-feira da Paixão 

Era sexta-feira da Paixão, 17 horas. O sr. Biba estava com os lábios na carne viva, resultado de uma briga na feira de Matrinchã. Ele pediu ao seu irmão Rapa que fosse buscar folhas de bidalo, uma planta conhecida por suas propriedades cicatrizantes. Rapa pegou um facão e partiu em direção à saída da cidade, rumo à Santa Rita.

Logo na saída de Matrinchã, havia um morrinho com pedras e arbustos do Cerrado. De longe, Rapa avistou um pé de bidalo e resolveu passar debaixo do arame para cortar a planta. Porém, mais adiante, ele viu outro pé mais bonito e verdinho, e decidiu cortar esse em vez do primeiro.

Ao se aproximar do pé de bidalo, Rapa sentiu um vento frio e estranho. Ele continuou com o facão e cortou a planta. Quando a colocou no ombro, sentiu alguém puxando e soltando. Ele resolveu arrastar a planta até passar debaixo da cerca, mas o vento soprava mais forte e estranho. O sol já estava se pondo, e a escuridão começava a cair.

Assim que Rapa passou debaixo da cerca, sentiu um barulho estranho e um puxão. Ele xingou e disse: "Não tenho medo de você e nem acredito que exista!" e continuou carregando o bidalo nas costas. De repente, uma mão fria bateu por trás dos seus joelhos e ele caiu ajoelhado ao chão. Levantou rapidamente e correu até chegar em casa.

Rapa estava pálido e tremendo. Ele teve diarréia e febre. A noite foi longa e assustadora. A coberta era puxada e a cama balançava. O garoto saiu da cama e foi deitar em um colchão novo que o outro irmão havia comprado. Ele deitou no colchão no chão, mas não adiantou. O colchão começou a ser arrastado na sala.

O pai do garoto, ouvindo o barulho, perguntou: "Que barulho é esse?" Rapa respondeu: "É alguém está arrastando o meu colchão comigo em cima!" O pai ficou assustado e não sabia o que fazer. A noite foi longa e aterrorizante para Rapa, que não conseguiu dormir.

A história de Rapa e o pé de bidalo se tornou uma lenda em Matrinchã. Muitos disseram que o garoto havia encontrado um "encosto" no mato, algo que o estava perseguindo desde então. Outros disseram que era o espírito da planta que estava se vingando por ter sido cortada.

Rapa nunca mais foi o mesmo depois daquela noite. Ele ficou com medo de sair sozinho no mato e começou a ter pesadelos frequentes. Seu pai, preocupado, o levou a um benzedor local, que fez um ritual para afastar o "encosto".

Mas a história não terminou aí. No ano seguinte, na mesma sexta-feira da Paixão, o irmão de Rapa, o sr. Biba, decidiu ir ao mato para cortar mais folhas de bidalo. Ele não acreditava na história do "encosto" e queria provar que era apenas uma superstição.

Biba foi ao mesmo lugar onde Rapa havia cortado o pé de bidalo e encontrou outro pé. Ele começou a cortar as folhas, mas logo sentiu um vento frio e estranho. De repente, ele ouviu uma voz sussurrando ao seu ouvido: "Não corte mais. Deixe as plantas em paz."

Biba se assustou e correu de volta para casa, deixando as folhas de bidalo para trás. Ele contou a história para Rapa e para o pai, que apenas balançaram a cabeça e disseram: "Nós avisamos."

A partir daquele dia, ninguém mais ousou cortar folhas de bidalo no mato. A história de Rapa e o pé de bidalo se tornou uma lenda, um lembrete de que alguns segredos é melhor deixar em paz.

Anos se passaram, e Rapa se tornou um homem. Ele nunca mais teve problemas com o "encosto", mas sempre respeitou o mato e as plantas. Ele se tornou um curandeiro, usando as plantas para ajudar os outros.

Um dia, um jovem doente chegou à sua porta, pedindo ajuda. Rapa o levou ao mato e mostrou as plantas que poderiam curá-lo. Mas, ao chegar ao local, Rapa sentiu um arrepio na espinha. Ele se lembrou da noite em que cortou o pé de bidalo e do "encosto" que o perseguiu.

Rapa olhou para o jovem e disse: "Você não está doente. Você está sendo chamado." O jovem olhou para ele, confuso, e Rapa continuou: "O mato está chamando você. Você precisa aprender a respeitá-lo."

O jovem ficou em silêncio, e Rapa o levou a um local secreto no mato. Lá, ele ensinou ao jovem como se comunicar com as plantas e como respeitar o mato. O jovem aprendeu bem, e logo se tornou um curandeiro também.

A história de Rapa e o pé de bidalo se tornou uma lenda, um lembrete de que o mato é um lugar de poder e mistério, e que é preciso respeitá-lo para não sofrer as consequências.

 

  • Autor: GINO (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 1 de abril de 2026 13:59
  • Categoria: Conto
  • Visualizações: 2


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