A hora do sono deveria ser tranquila,
mas a madrugada tem dentes.
Fechei os olhos cansados
e esperei o sono cair sobre mim
como terra sobre um caixão.
Esperei.
E, quando enfim dormi,
abri os olhos em outro lugar.
Havia uma sala sem fim,
um labirinto de paredes úmidas,
e névoa vermelha.
Portas.
Portas por todos os lados.
E atrás de mim,
algo.
Não via seu rosto,
mas sentia seus passos
arranhando o chão,
respirando na minha nuca.
Então corri.
Corri até encontrar uma porta
banhada por uma luz branca,
branca demais para ser humana,
branca como os dentes de um morto.
Entrei.
Por um instante,
a claridade me cegou.
E, quando pude ver,
eu estava no alto de uma torre
tão alta
que parecia costurada ao céu.
No centro do teto
havia um anjo de pedra.
Ele chorava sangue.
Era eu, o anjo empedrado.
Mas eu já estava cansada demais
para ter medo de milagres apodrecidos.
Continuei andando.
Faltava apenas virar a esquina,
apenas mais um passo,
e talvez houvesse paz.
Mas a porta.
A maldita porta.
Ela se abriu atrás de mim
como uma boca,
agarrou minhas asas invisíveis
e me puxou de volta.
De volta ao escuro.
Dessa vez, não havia portas.
Nem céu.
Nem saída.
Só móveis velhos,
madeira apodrecida,
e no canto da sala,
ela.
Uma coisa enorme.
Olhos arregalados,
um sorriso largo demais,
como se a própria noite
tivesse aprendido a rir.
Ela me observava.
E eu entendi.
A luz nunca quis me salvar.
Só queria me mostrar
o quanto o inferno podia parecer o paraíso.
Corri até a criatura
com lágrimas no rosto
e medo nos ossos.
Tentei atacá-la
antes que ela me tocasse.
Mas meus braços atravessaram o vazio.
E o sorriso dela cresceu.
Então acordei,
me debatendo na cama,
com o peito em chamas
e a sensação horrível
de que alguma coisa
acordou comigo.
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Autor:
mrsbze (
Offline) - Publicado: 31 de março de 2026 20:46
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 1

Offline)
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