Ela veio do sul da Itália com o coração cheio de mares antigos. Trazia nos olhos o brilho das águas de Nápoles, onde os barcos dançam na costa do sol como se nunca houvesse despedida. Mas houve.
Era 1930 quando ela pisou no sul do Brasil. A terra era vasta, os campos pareciam não ter fim, e o vento carregava uma linguagem que ela ainda não compreendia — mas sentia. Porque certas coisas não precisam de tradução: a saudade, por exemplo, já morava nela antes mesmo da viagem.
Chamavam-na de Lucia.
Lucia caminhava pelas manhãs cobertas de neblina como se estivesse atravessando dois mundos. A névoa que subia dos campos lembrava-lhe o sal que beijava o porto de Nápoles. Às vezes fechava os olhos e podia quase ouvir o ranger das cordas, o murmúrio dos pescadores, o chamado distante das embarcações partindo.
Mas ali, naquele novo sul, era o silêncio que respondia.
E, ainda assim, ela se apaixonou.
Não por um homem — ou talvez também — mas por algo mais sutil: a forma como a névoa tocava a paisagem ao amanhecer. Havia nela uma delicadeza antiga, como se escondesse segredos do tempo. Lucia começou a esperar pela neblina como quem espera por um reencontro.
“É nela que eu volto”, sussurrava.
Nos dias claros, sentia-se estrangeira. Mas quando a névoa vinha, tudo se tornava familiar. Era como se o passado atravessasse o oceano e a encontrasse ali, entre o frio leve e o cheiro de terra úmida.
Diziam que ela ficava parada por horas, olhando o vazio branco, como se alguém estivesse prestes a surgir. Alguns juravam que a viam sorrir sozinha. Outros, mais atentos, diziam que ela conversava com o vento.
Talvez falasse com os barcos que nunca deixaram de partir.
Talvez com o amor que ficou em Nápoles.
Ou talvez com uma versão de si mesma que ainda caminhava pela costa do sol.
Com o tempo, Lucia tornou-se parte da paisagem. Sua história se dissolveu como a própria névoa — impossível de segurar, mas sempre presente.
E até hoje, quando o sul amanhece coberto por um véu branco e silencioso, há quem diga que é ela quem chega.
Não mais como lembrança,
mas como saudade que aprendeu a morar no mundo.
- Autores: Jullyne and Jully (Pseudónimo
- Visível: Todos os versos
- Publicado: 31 de março de 2026 15:57
- Limite: 6 estrofes
- Convidados: Amigos (usuários da sua lista de amigos podem participar)
- Categoria: Carta
- Visualizações: 2
- Em coleções: POESIAS D\'Mundo.
