Desfaçatez

Oswaldo Jesus Motta

Sua desfaçatez

não confessa —

escancara

no jeito de passar por mim

como quem olha um espelho

e não se reconhece

o sol em você

já não aquece

escurece

e eu —

que girei dias inteiros

em torno desse fogo

aprendi tarde:

teu silêncio já vinha frio

antes de mim

anoitece em pleno meio-dia

a luz falha

nos lugares onde te inventei

(e eu insisto em acender)

nos teus desvios

você aparece —

não nua,

mas ausente

do que ficou pela metade

o resto:

um abraço já sem calor

um beijo gasto na boca

e esse amor

ainda aceso

onde você apagou

 

Comentários +

Comentários1

  • Vilma Oliveira

    Olá poeta! Boa noite! A imagem da pessoa que passa como quem olha um espelho e não se reconhece é fortíssima. Sugere alguém tão vazio ou desconectado de si que nem a própria imagem (ou o reflexo do amor no outro) faz sentido. Você utiliza a dinâmica heliocêntrica (girei dias inteiros em torno desse fogo) para descrever a dependência emocional. O drama surge quando o sol (o outro) para de aquecer e começa a escurecer. É um eclipse afetivo: anoitece em pleno meio-dia. O trecho: a luz falha nos lugares onde te inventei, é a chave do poema. Ele admite que muito do brilho não vinha do outro, mas da projeção de quem amava. O esforço de insistir em acender, mostra a dificuldade de aceitar que o objeto de amor mudou ou nunca existiu daquela forma. O poema é construído entre o frio (silêncio, ausência, beijo gasto) e o fogo (o amor que ainda queima em quem escreve). O encerramento é um golpe de mestre: o amor permanece aceso justamente onde o outro já se apagou. É o descompasso final entre quem já partiu e quem ainda habita a relação.
    Meu abraço poético!

    • Oswaldo Jesus Motta

      Ótimo dia, poeta! Muito obrigado pela presença e pela leitura! Amo os vossos comentários! Um abraço poético! Seja sempre bem-vinda!



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