Sua desfaçatez
não confessa —
escancara
no jeito de passar por mim
como quem olha um espelho
e não se reconhece
o sol em você
já não aquece
escurece
e eu —
que girei dias inteiros
em torno desse fogo
aprendi tarde:
teu silêncio já vinha frio
antes de mim
anoitece em pleno meio-dia
a luz falha
nos lugares onde te inventei
(e eu insisto em acender)
nos teus desvios
você aparece —
não nua,
mas ausente
do que ficou pela metade
o resto:
um abraço já sem calor
um beijo gasto na boca
e esse amor
ainda aceso
onde você apagou
-
Autor:
Oswaldo Jesus Motta (
Offline) - Publicado: 30 de março de 2026 11:40
- Categoria: Amor
- Visualizações: 13
- Usuários favoritos deste poema: Drica, Vilma Oliveira

Offline)
Comentários1
Olá poeta! Boa noite! A imagem da pessoa que passa como quem olha um espelho e não se reconhece é fortíssima. Sugere alguém tão vazio ou desconectado de si que nem a própria imagem (ou o reflexo do amor no outro) faz sentido. Você utiliza a dinâmica heliocêntrica (girei dias inteiros em torno desse fogo) para descrever a dependência emocional. O drama surge quando o sol (o outro) para de aquecer e começa a escurecer. É um eclipse afetivo: anoitece em pleno meio-dia. O trecho: a luz falha nos lugares onde te inventei, é a chave do poema. Ele admite que muito do brilho não vinha do outro, mas da projeção de quem amava. O esforço de insistir em acender, mostra a dificuldade de aceitar que o objeto de amor mudou ou nunca existiu daquela forma. O poema é construído entre o frio (silêncio, ausência, beijo gasto) e o fogo (o amor que ainda queima em quem escreve). O encerramento é um golpe de mestre: o amor permanece aceso justamente onde o outro já se apagou. É o descompasso final entre quem já partiu e quem ainda habita a relação.
Meu abraço poético!
Ótimo dia, poeta! Muito obrigado pela presença e pela leitura! Amo os vossos comentários! Um abraço poético! Seja sempre bem-vinda!
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