Refeitório

Francisco Queiroz

A sineta me diz a hora de me levantar para o almoço.
Por infortúnio, ela alerta para que todos se levantem.
 
Sorte é ter um restaurante honesto por perto.
O revés é que sempre está cheio.
 
Sem me incomodar, pego a fila, não tem para onde fugir.
Há uma certa demora, justificada por outras duas filas até a saída.
Tem prato feito, executivo, e a marmita para levar, só muda o jeito de embalar.
 
Conto sempre com a gentileza dos motoristas que param na faixa de pedestre.
O sol ardido no rosto, agradeço mesmo sem ver o benfeitor.
 
Pronto, sento no refeitório do trabalho.
 
Começo a comer sentindo a colher raspar nos dentes.
Aprecio o que tenho na boca, tateando com a língua.
O sabor faz com que eu engula de forma cerimonial.
O feijão é uma bênção proferida por quem plantou, transportou e preparou.
 
Falou comigo um colega sobre qualquer coisa do cotidiano,
e quebrou assim a cerimônia.
 
O tema futebol é recorrente, assim como possibilidades de polêmicas vãs.
Foi ou não foi falta, jogador tal fez um moicano e mais técnico perdeu o emprego.
 
Repetindo-se, o jornal noticiou mais uma violência.
Dessa vez foi contra uma estátua, a vítima não pôde reagir.
 
Agora, uma inédita nesta semana, um político desviou dinheiro da merenda.
Essa é de tirar o apetite, segue para o intervalo
e volta com mais um buraco na via que se abriu e não foi tampado.
 
Há o clássico lote baldio com um jogo de sofá e resto de construção.
Engraçado, limpa-se num dia, no outro já se sabe o que acontece.
 
Estou quase saciado e ainda me resta escolher entre a maçã e o refrigerante.
 
Entre um time ou outro, entre repudiar ou amar um político,
entre a indiferença ou o discurso pomposo apresentando soluções,
tanto para a via quanto para o lote.
 
Em uma hora de almoço, tantos dilemas.
E olha que hoje nem teve nenhuma discussão aqui no trabalho.
No dia em que há, ela se soma aos dilemas e toma a prioridade.
 
Acho que tudo isso pode até atrapalhar a digestão.
 
Escolho a maçã e um lugar para uma boa soneca.
Antes de voltar, escovo os dentes.
Se sobrar um tempinho, um pedacinho de livro para clarear a mente.
 
Amanhã parte da novela se repete,
com outras cores, outros atores, outros tons.
  • Autor: Francisco Queiroz (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 29 de março de 2026 16:23
  • Categoria: Conto
  • Visualizações: 3
  • Em coleções: Urbano.


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