30 dias que eu não durmo.

Brunna Keila

Tem dias em que a vida acorda com gosto de coisa esquecida no fundo da boca. Amargo. Um amargo que não vem da língua, mas do peito. A cama, que deveria ser abrigo, vira só superfície — fria, distante, quase indiferente à minha existência. O corpo deita, mas não repousa. A cabeça não silencia. E o peito… ah, o peito pulsa como quem tenta avisar que algo dentro de mim não está sabendo viver direito.

 

Essa sou eu, em certos dias: uma travessia cansada de si mesma.

 

Os dias não passam — eles se arrastam. O tempo perde a pressa, como se tivesse desistido de mim. A comida perde o calor, mesmo recém-feita. Tudo parece morno, sem vida, como se o mundo estivesse em pausa e só eu tivesse ficado acordada dentro dele.

 

Meu peito pesa. Não é dor exata, nem nomeável. É um peso que ocupa espaço, que respira comigo, que insiste em ficar. A mente falha, como um rádio fora de sintonia — chiando pensamentos soltos, repetidos, cansados. Minhas mãos carregam um cansaço antigo, como se tivessem tocado coisas demais, segurado ausências, apertado vazios. E minhas pernas… minhas pernas parecem saber de caminhos que eu não lembro ter escolhido. Caminhos escuros, longos, silenciosos.

 

Eu deito.

 

Fecho os olhos.

 

Mas o sono não me encontra.

 

A cama não me acolhe, o travesseiro se faz duro como se recusasse meus pensamentos, e as paredes… as paredes parecem mais frias do que deveriam, como se estivessem assistindo tudo sem poder intervir.

 

Eu me viro de um lado para o outro, procurando um lugar dentro do próprio corpo onde caiba descanso. Não encontro. Há sempre algo em mim que permanece desperto — uma parte que vigia, que pensa, que sente demais.

 

Eu durmo, sim.

 

Mas a minha mente continua andando.

 

E talvez seja isso o mais cansativo: viver mesmo quando o corpo tenta parar.

 

Ainda assim, em algum canto muito escondido — quase imperceptível — existe uma esperança tímida. Não dessas grandes, que salvam o mundo. Mas uma pequena, quase silenciosa, que sussurra:

“Talvez amanhã o gosto mude.”

 

E eu, mesmo cansada, escolho ouvir. Só um pouquinho. Só o suficiente pra continuar.

  • Autor: Brunna Keila (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 22 de março de 2026 13:28
  • Categoria: Triste
  • Visualizações: 1


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